Os olhos de um homem bom

Era domingo em África e Vladimiro Rocha, o benfeitor, aprontou-se para ir à missa, à primeira da manhã. Havia nos arredores quatro igrejas e ele foi à que ficava mais perto. Atravessou o pátio da missão, àquela hora submerso em silêncio profundo, como se ali não houvesse vida nem paixões nem corações perdidos, e depois seguiu pela estrada de terra batida e reparou que as pessoas tinham posto as melhores roupas, sobretudo as crianças, coisa que o comoveu muito, porque lhe fez recordar as manhãs da infância quando acompanhava a tia à igreja e as aves cantavam e os homens davam ações de graças ao criador.

Durante a missa, porém, inquietou-se com o sermão do padre, um tipo branco, pois consistiu numa série de insultos e ameaças aos fiéis, onde os miúdos eram tratados por macaquinhos e os adultos por macacões e os jovens – gritava ele – os jovens só pensam em pinar com as meninas (pinar, Vladimiro Rocha ouvira bem), são como animais, berrava o padre, são como animais com roupa!

Os fiéis permaneciam impávidos e serenos e a missa terminou como se nada fosse, com danças e cantorias, e depois o padre subiu numa mota e arrancou com ares de ser turista e estar de passagem.

Vladimiro Rocha, o benfeitor, regressou atordoado à missão e dedicou o resto do domingo a fazer observações, diluído nas sombras e na distância do dia.

Na parte da manhã, um dos padres negros, que devia ter 45 anos, chegou ao volante duma pickup carregada de raparigas em grande algazarra, todas muito felizes. Saiu do carro, entrou depressa no edifício principal e regressou pouco depois, meteu-se de novo no carro e arrancou com as raparigas sempre aos gritos lá em cima.

O padre mais novo, um tipo talvez com 35 anos, chegou sozinho às 11 horas com o volume do rádio do todo-o-terreno muito alto e o Roberto Carlos a cantar o importante é que emoções eu vivi.

Vladimiro Rocha tornou a vê-lo na parte da tarde, a inspecionar o jardim à frente da escola. O telemóvel tocou. O padre atendeu e entrou no gabinete. Daí a pouco chegou uma rapariga de 15 ou 16 anos, muito suave e bonita. Bateu à porta e disse: Dá licença? Saiu passadas duas horas e foi-se embora por um caminho lateral, rente ao muro.

O padre superior de longas barbas brancas e olhos doentes recebeu três visitas. A primeira foi perto da hora do almoço. Dois negros chegaram num jipe. Um era alto, magro e sombrio; o outro baixo, atarracado e extremamente risonho. Deviam andar os dois pelos 30 anos. O padre esperava-os à porta. O encontro durou trinta minutos. Quando saíram, os negros estavam muito sérios, como se tivessem abordado um mau negócio.

Mais tarde, por volta das 14 horas, duas meninas vieram bater à porta da casa principal. Eram crianças de dez ou doze anos e tinham os cabelos trançados, com muitas missangas coloridas nas pontas. O padre abriu a porta e elas entraram. Vladimiro Rocha não reparou quando saíram.

Ao cair da noite uma mulher jovem e alta, de boas formas e ótimas carnes, envergando uma capulana esverdeada e uma camisola da seleção italiana de futebol, bateu à porta e foi recebida pelo padre superior.

Vladimiro Rocha, o benfeitor, entrou por fim no quarto, sentou-se na cama, pôs as mãos na cabeça e sentiu abeirar-se de si um forte enjoo existencial. De repente, bateram à porta. Ele levantou-se e foi tomado por uma vertigem que o fez deitar a mão à parede. Abriu a porta.

– Oi. Eu sou Esperança. Posso entrar?

Vladimiro Rocha fixou o emblema da seleção italiana de futebol na camisola da mulher e o seu rosto adquiriu o aspeto de um verdadeiro louco.