Da minha varanda vejo antenas

E em cima das antenas, gaivotas equilibristas. Da minha varanda vejo pombos dormindo aos pares nas janelas das águas-furtadas. Vejo, há semanas, trabalhadores a arranjar um telhado e a colocar piquinhos metálicos a toda a volta, diminuindo as opções dos pombos para a sesta.

Da minha varanda observo a hora de ponta dos passeios caninos e como, com um ar triste, aliviam em público os seus intestinos e bexigas. Admiro os gatos vadios que ostentam a sua liberdade passeando-se em cima dos muros e provocando os cães nos seus quintais, que não podem fazer mais nada a não ser ladrar.

Da minha varanda acompanho o vizinho do prédio em frente a cozinhar e a pendurar roupas no estendal, normalmente camisas com estampas coloridas que nunca usa quando está de volta dos tachos. Se olhar para o lado esquerdo, vejo metade de uma rotunda e um jardim com crianças empoleiradas nos equipamentos de ginástica. Nos bancos desse jardim, se estiver sol, dois velhotes costumam sentar-se quase sempre à mesma hora. Imagino os seus comentários indignados por não haver ali uma mesa para jogarem sueca ou dominó e as suas reclamações acerca do trabalho da Junta de Freguesia.

Foi fazendo algo desse género que passei, há muitos anos, a minha primeira tarde em Portugal. Vinda direta do aeroporto, fui deixada na casa da minha tia e na companhia de uma prima bem mais nova, que por minha causa faltou às aulas. Juntas, dedicámo-nos à atividade recreativa de ficar à janela imaginando histórias para as situações que testemunhávamos, inventando o antes e o depois desses cenários.

Uma senhora a caminhar com um saco de compras foi a protagonista de um elaborado enredo criado a duas mãos e que se centrava no conteúdo das suas compras e a quem se destinavam. Lembro-me que um padeiro a conversar com um casal à porta do seu estabelecimento também nos deu o mote para outra história, que envolvia um triângulo amoroso. Inventámos nomes, profissões, estados civis, agregados familiares, motivações, alegrias e preocupações. Durante horas, ficcionámos a vida dos outros e reproduzimos diálogos imaginários. Era uma brincadeira simples, em tempos de pouca tecnologia mas de muita criatividade.

Para não perder o jeito, continuo a inventar histórias baseadas nas nesgas de quotidiano que vejo da minha varanda. Um dia ainda vou trazê-las todas para dentro de casa.
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