Ser poesia

"Tu és a poesia", terá dito Francisco, o Papa, a Tolentino, o poeta. E nesta frase deposito toda a esperança de que o agora cardeal não deixe sobretudo de ser o poeta e, por meio dele, a poesia. A poesia no que ela tem de mais humano, de mais terra, corpo, sonho, sangue, sopro, amor, verdade, luta, e vida por dentro de tudo isto.
Recordo, nesta esperança, uma conversa com Tolentino Mendonça, há já alguns anos, no Jardim da Estrela. Recordo que o então padre preferiu ser fotografado com as árvores em pano de fundo e não com a Basílica a denunciar uma natureza única.
Dizia então que se sentia mais próximo das pessoas, dos carros, da cidade. Dizia então que uma vocação religiosa não esvaziava a vida "das suas expressões mais comuns, mais humanas". Que uma vocação religiosa era também uma coisa natural em termos humanos, "porque todos nós, amassados de poeira, de sangue e de sonhos, fomos feitos não apenas para o visível, mas para saber contemplar o invisível, saber escutar a música inaudível, aquilo que neste momento está a ser entoado, e que todo o ruído do mundo e de nós próprios nos impede de ouvir".
Dizia, ainda, que Deus só pode ser "encontrado nos baldios", ou sobretudo nos baldios.
Senti que o Padre de então era realmente a poesia e tudo o que dentro dela existe. Era um homem antes de qualquer vocação.
Espero que o ruído do mundo, o ruído da Instituição, de tudo o que sabemos existir nestas duas esferas, não cale a poesia do poeta que se reclamava das pessoas, dos carros e da cidade.
Eu, que acredito mais na humana condição da poesia do que na sua suposta divindade. Eu, que gosto de Igrejas pelo que nelas há de construção humana, pelo que nelas persiste das mãos que as construíram enquanto edifícios. Eu, que gosto de imaginar os operários que as desenharam para o silêncio que elas deixam existir quando todo o barulho se cala. Eu, que acredito que a poesia, como toda a literatura, é a verdadeira vida, que acredito também mais nas pessoas, nos carros e nas cidades. Eu, que acredito que Deus pode unicamente ser encontrado aí, nessa humanidade que constrói cidades, sonha catedrais, engendra o silêncio e a poesia por dentro de tudo. Eu, que acredito, no fundo, que a existir Deus, ele só pode ser encontrado nos baldios ou na multidão, quero acreditar que um poeta possa sobreviver no Vaticano ou em qualquer outro Estado.
Aliás, a única forma que tenho de celebrar a chegada de um poeta a cardeal é esta: desejar que ele continue a ser poesia. Desejar que a poesia dos baldios não se perca nos corredores de qualquer poder, seja ele humano ou divino.
Esta é a minha forma de celebrar José Tolentino Mendonça: desejar que ele seja sempre poesia.