A morte do artista no país das maravilhas

A vida agora é sempre eu e a Pat e às vezes eu digo-lhe assim: Pat, a felicidade é a morte do artista. Ela franze a testa e responde: Não sejas tonto! E tem razão, claro, estou a ser tonto, mas na mesma insisto e digo-lhe assim: Sinto-me tão feliz que já não consigo escrever. Há qualquer coisa na raiz da felicidade ou talvez na constância da felicidade que bloqueia a criação artística. Não sei explicar bem o que é…

Suspiro e acrescento:

– É a morte do artista no país das maravilhas.

A Pat encolhe os ombros e vai circulando pela casa a fazer isto e aquilo e eu vou ficando cada vez mais encantado com aquele cirandar para cá e para lá. Ela revira os olhos perante as minhas manias e as coisas que digo sem tino, ela sorri, ela ri às gargalhadas, vai à cozinha buscar um iogurte, vai ao quarto fechar a janela, volta para a sala, corre as cortinas, a luz do dia entra, a luz do dia sai, e eu cada vez mais fascinado com aquele movimento de cá para lá, de lá para cá, a lembrar-me também de uma crónica que escrevi pouco depois de nos conhecermos, onde disse assim:

Qualquer dia vou estar num restaurante cheio de gente ou numa rua muito movimentada, bem no centro da nossa capital, e vai dar-me uma coisa explosiva de repente, uma coisa imaterial, e vou dizer em voz alta, muito alta:

– Eu amo esta mulher!

E depois, quando me calo, ela diz:

– Já que não consegues escrever mais sobre a tua vida, dedica-te à ficção.

Ou então desafia-me a escrever sobre o lado obscuro das organizações de voluntários em África e das missões religiosas e das ONG, um mundo que eu conheço mais ou menos bem, porque vivi lá durante cinco anos e entre muitos prodígios contemplei também horrores que ainda não sou capaz de contar, de certa forma por respeito a mim, à minha vida, porque escapei sempre ileso do bem e do mal e voltei são e salvo à ilha, ao Laranjal e aos poios dos meus antepassados – solo sagrado, solo eterno.

E quando a Pat foi lá a casa, na curva da Comandante Camacho de Freitas, e percorreu os recantos, o jardim e a fazenda ao redor e foi ao terraço e avistou a igreja de Santo António e o Pico dos Barcelos e o mar a brilhar muito azul e o infinito também a brilhar muito no azul do mar e conheceu o meu pai e falou com ele e com a sua solidão, ouviu a sua voz e viu que somos tão parecidos, eu e ele, quase iguais à distância de trinta anos, ficou comovida e disse-me assim:

– Esta é uma casa de amor.

E então foi a minha vez de ficar impressionado, porque percebi que afinal a magia dos lugares da minha infância e sobretudo toda a magia da minha origem permanecem intactas, sobrepondo-se vezes sem conta às vagas de velhice e ruína e tragédia que todos os dias rebentam em tempestade na praia dos meus olhos e do meu coração e da minha alma, quando estou nas zonas altas e quero fugir, sumir-me no tempo, desaparecer no mundo, entrar no labirinto e fechar a porta, abandonar a pedra filosofal da minha existência.

Abracei-a.

A vida agora é sempre eu e a Pat e às vezes eu digo-lhe assim: Pat, quero-me todo aqui. Cheguei ao lugar aonde sempre quis chegar e preciso de mim inteiro para continuar a amar-te. E a escrever também…