O regresso do borrão

Há umas semanas iniciei um pequeno retrocesso. Um retrocesso positivo e produtivo. Tudo começou com a leitura de um conteúdo na revista National Geographic de setembro. O breve texto, patrocinado pela The Navigator Company, baseia-se em estudos científicos de várias instituições para divulgar os muitos benefícios de escrever à mão e de ler em papel, por oposição ao uso dos suportes digitais. Entre eles, a promoção “do pensamento abstrato, da concentração e da compreensão, ao mesmo tempo que reivindicam um menor cansaço ocular”.

Achei tudo muito interessante e, não querendo aumentar as minhas dioptrias, decidi escrever mais à mão. Se os meus hábitos de leitura conseguiram manter-se ‘analógicos’ (desde os livros, jornais e revistas, até aos folhetos do supermercado), a escrita definitivamente tinha sido deportada para o ‘digital’.

Compreensivelmente, a maioria dos estudos foi realizada em crianças e jovens, e isso fez-me pensar nas rotinas de escrita da minha casa quando tinha a idade deles. Recordei o livro de telefones e endereços que a minha mãe usou durante anos e o seu caderno A4 preto, cheio de receitas escritas à mão e acompanhadas de dicas e comentários práticos. Depois, consegui imaginar, e até sentir o cheiro, dos cadernos coloridos do meu pai: um para a gestão mensal das finanças familiares e outro para os desenhos. Pensei nas minhas agendas escolares, nos meus diários e nas cartas que troquei com as minhas pen palls.

Só pode ser culpa dessa vivência eu ter-me tornado uma ‘maluquinha do economato’, alguém que se aventura numa grande superfície em época de regresso às aulas ‘só para ver as novidades’... como se fosse capaz de sair de lá sem passar pela fila do caixa. E só pode ser culpa da National Geographic eu andar agora com dores no braço direito.

Felizmente, este pequeno retrocesso trouxe-me também um amor antigo e uma velha conhecida: a minha caligrafia. Notei que está diferente e, a acreditar que pode refletir a nossa personalidade, não é de estranhar. Mesmo mudada, voltei a encantar-me com ela e a ficar vaidosa como no tempo em que os meus apontamentos eram um artigo disputado. Dou por mim a apreciar a ‘mancha’ que produzo no papel, o ‘A’ e o ‘M’ bem arqueados e esguios, as perninhas tímidas do ‘f’, do ‘g’, e do ‘p’, e tantas letras entrelaçadas como namorados apaixonados.

Mas o melhor de voltar a escrever à mão foi deixar de poder eliminar, definitiva e imediatamente, com um simples clique, os meus enganos e mudanças de ideias. Mesmo por baixo de um discreto risco horizontal ou de um borrão escuro, eles continuam lá e não serão passados a limpo. Também fazem parte da vida.