Chão de setembro

Acaba o verão. Começa a vida. Os caminhos cheiram a uvas vindimadas e o ar povoa-se de propostas de futuro, de coisa nova que rebenta por dentro, como se fosse, outra vez, primavera. Basta olhar os miúdos que empurram o sono com os dedos, enquanto se despacham para ir para a escola. Basta olhar a rua novamente habitada por gente que se impede de morrer. Basta olhar. 
   No chão de setembro, despontam amanhãs. E sonhos. E esperança. As uvas hão de ser vinho; as folhas hão de cair para dar lugar a outras, mais tenras, mais verdes; os dias hão de encher-se de novidades. E sim, há de haver noites mais escuras, olhos mais chuvosos, momentos mais frios, porque a vida é assim, porque transportamos a fragilidade bem no centro da nossa fortaleza.
   Talvez por isso me apeteça, hoje, guardar o sol velhinho na algibeira, para o ter sempre à mão. Faço isso com as estrelas, à noite. E com o mar, no verão. E com os amigos, a vida toda. Talvez por isso me deixe ficar no assim que a vida permite aos que já perceberam que o tempo é um sopro e que é preciso aproveitá-lo. Inteiro. Com a festa possível de cada dia. Com os que amamos. Com os que nos amam.
   O chão de setembro alimenta os sonhos: que este ano é que vai ser, que as notas vão subir, que os projetos se hão de concretizar, que o milagre – aquele milagre – vai acontecer. Sabe que merece o melhor que a vida tem, não sabe?
   Então, meu amigo, sente-se comigo no chão de setembro e acredite que a sua força é extraordinária e que a sua luz é fundamental para quem está sentado à sua beira. E permita-se a liberdade dos que conhecem o valor dos sonhos. É que, às vezes, basta estender um cobertor no mar [direitinho, como quem faz uma cama], inventar a coragem do impulso,
e se não chego lá?
saltar
e se caio à água?
e deixar que a espuma branca das ondas nos leve até
e se não valer a pena?
onde habita a verdade de nós.
   O chão de setembro pode ter a forma do mar -  infinito [nem redondo, nem quadrado, nem] – porque é exatamente aí, neste agora que nos foi oferecido, que começa o futuro. O dos miúdos. O meu. O seu.
   E salte para o cobertor, meu amigo. Eu vou também, AGORA.