O pior foi o que veio depois

Marcámos por três vezes uma nova data para o casamento, disse o senhor Alberto dos Três Paços, mas à medida que o dia se aproximava, os sonhos voltavam e era todas as noites o mesmo pesadelo, sempre aquela sombra negra a envolver a minha noiva, a dizer que vinha da Grécia, venho da Grécia, e ela ali quieta à espera de ser possuída, um horror, está a ver, um horror e depois eu adoecia, ia parar ao hospital, ficava lá uma semana, tornava a casa, ganhava força, ganhava esperança, agendávamos outra vez a boda e depois os sonhos voltavam, era sempre assim…

– Um tormento – disse eu.

– Um suplício! – reforçou ele.

A tristeza abateu-se sobre nós, a chuva cresceu na rua, o frio intensificou-se. Ficámos calados e no silêncio eu pensei mas que diabo quer este indivíduo, pensei ele chegou aqui a dizer que andava muito preocupado, mas não estou a perceber nada disto e de repente ele começou a falar outra vez:

– Cancelámos o casamento e eu vim viver para Lisboa. A minha noiva emigrou para o Brasil. Nunca mais soube dela.

Suspirou e eu senti que ele estava perdido.

– Mas o pior foi o que veio depois.

– E o que foi? – perguntei.

O senhor Alberto dos Três Paços iniciou então o relato mais ou menos caótico da sua vida solitária na capital, onde nada de relevante tinha ocorrido, nada mesmo. Foi um desfiar de acontecimentos insignificantes e o tempo a passar e tudo o que ele disse assumiu uma profunda dimensão de vazio, quase como se não tivesse dito coisa alguma ou como se ao falar a sua boca produzisse apenas vento, um vento que não se ouve porque sopra quando estamos a dormir, um vento parado, e eu abanava a cabeça que sim, erguia as sobrancelhas, franzia a testa, fazia caretas, sorria, dizia sim sim, pois pois, claro, estou a ver, estou a ver e ele continuava a esfiapar o oco da sua vida como se fosse uma epopeia.

De repente, interrompeu a narração e disse:

– Adivinho pelo sotaque que é da Madeira.

– Acertou – respondi.

E ele:

– Quando chove tenha cuidado ao andar no Funchal. As pedras da calçada são muito escorregadias. Ponha-se sempre a pau com os sapatos.

O senhor dos Três Paços encolheu os ombros e acrescentou:

– Bem sei que você é de lá e sabe melhor do que eu como são as ruas.

Olhou por debaixo da mesa para as minhas botas, já muito gastas.

– Esse calçado é excelente. Cuide bem dele, faça-o durar muito – disse a sorrir, enquanto calcava uma das pontas com o seu sapatinho de camurça. – Mas se viajar de avião não vá para o aeroporto com isso – advertiu. – Têm biqueira de aço e terá de as tirar por causa dos sensores.

Eu não sabia o que dizer.

– Um dos meus primeiros empregos em Lisboa foi numa sapataria – explicou. – Naquela altura as pessoas davam muito valor aos sapatos. Toda a gente queria ter sapatos de bom couro e sola firme. Toda a gente é como quem diz as pessoas que realmente dão valor à vida, pois sempre houve delas que não se importam de escorregar e partir pernas e braços ou andar por aí a coxear por causa das bolhas. Há gente para tudo, já se sabe, há gente para tudo.

Eu quis pôr um ponto final na conversa e disse:

– Você chegou aqui a queixar-se que andava inquieto e precisava de falar com alguém. Diga lá o que é que o traz assim tão preocupado este inverno.

O senhor Alberto dos Três Paços mostrou-se desconcertado, desiludido. Poisou as mãos em cima da mesa e abanou a cabeça com desânimo, como quem percebe inesperadamente que o interlocutor é estúpido, desprovido de inteligência, cabeçudo e burro como um aluno que nem à milésima vez entende a lição.

– Meu caro jovem – disse ele – eu não tenho estado a falar de outra coisa senão do que me traz preocupado este inverno.