As aventuras do homem parado

Era um homem que fazia a mesma coisa todos os dias na certeza de que uma grande mudança haveria de lhe ocorrer um dia e era um homem normal como qualquer outro. Nunca deixava o cabelo crescer mais do que o comprimento da unha do dedo indicador, pois este é o tamanho máximo que pode ter o cabelo de um macho, conforme lhe ensinara o avô, sob pena de ser considerado efeminado, uma menina, dizia o avô, um mariquinhas de cabelo comprido e tu não és assim.

O homem parado acordava todos os dias às 06h10, tomava duche, desfazia a barba, preparava o pequeno almoço – pão, água, fruta – e saía de casa 55 minutos depois de ter acordado. Seguia pelo mesmo caminho, no âmago da cidade, até ao mesmo café, onde se sentava à mesma mesa, porque era sempre o primeiro a chegar, e bebia sempre uma bica e um brandy, enquanto lia o jornal, entusiasmando-se com os casos do dia, porque eram plenos de ação e imprevistos na exata proporção em que a sua vida era estagnada e repetitiva.

Abandonava o café às 07h55, deslocava-se até ao fundo da rua e entrava no escritório onde trabalhava. Durante a manhã, fumava sempre dois cigarros, um atrás do outro, acendendo o segundo no primeiro, entre as 10 e as 10h15, enquanto tomava a segunda bica do dia num bar ao lado do escritório.

Desta vez sentava-se ao balcão, num banco que nem sempre era o mesmo devido ao grande número de pessoas que lá ia tomar café à mesma hora e ele achava nisso um fabuloso elemento de perturbação e sentia-se feliz por existir e ser forçado a procurar um lugar vago entre os sete disponíveis. Às vezes estavam todos ocupados, obrigando-o a meter-se em pé entre dois deles, coisa que o fazia tremer de emoção e enchia de pensamentos mágicos sobre como seria louca a sua vida quando se desse a grande mudança.

Às 12h30 o homem parado descia a rua pelo lado esquerdo, tentando imaginar a sua alma do lado direito, e entrava no mesmo restaurante onde comia sempre o prato do dia, exceto se fosse dobrada. Para evitar sobressaltos, negociara com o proprietário a reserva da mesma mesa para sempre. E lá estava ela à sua espera. Ficava perto da janela grande que dava para a rua, mas colocava o ocupante numa posição em que podia observar sem ser observado. E ali ficava o homem parado a mastigar devagarinho e a bebericar um copo vinho tinto.

Finda a refeição, pedia um café e fumava dois cigarros pelo mesmo método da manhã e depois regressava ao escritório, onde entrava às 14 horas. Ia sempre pela mesma rua e pelo mesmo lado, contente por resistir à tentação de querer ver o espaço de outra perspetiva.

Às 16 horas em ponto o homem parado entrava no bar ao lado do escritório para beber o último café do dia e fumar mais dois cigarros de seguida.

Às 17h30 deixava o escritório e seguia para casa, sempre pelo mesmo caminho. Duas ruas antes daquela onde morava, metia-se numa tasca de má figura, disposto a ceder ao caos e isso durava o tempo de dois brandis, quatro cigarros e uns petiscos. Como era de poucas palavras, os pândegos da tasca, sempre bêbados e barulhentos, não perdiam tempo a falar com ele.

O homem parado abria a porta de casa às 19h15 e começava logo a preparar o jantar, uma refeição rápida de ovos ou salsichas ou sardinhas em lata, tomate, pão e um copo de vinho branco. Depois, o homem parado saía para dar uma volta higiénica ao quarteirão, indo sempre pelo mesmo lado. De novo em casa, sentava-se no sofá a ver televisão e fumava os últimos dois cigarros do dia.

Às 23h30 deitava-se e adormecia após a leitura de um trecho d’As Mil e Uma Noites, a única obra que possuía, uma edição especial de 1954 da Livraria Clássica Editora, coligida por Eduardo Dias em seis volumes. A luz ficava quase sempre acesa e o volume precipitava-se no soalho ou então ficava a dormir ao seu lado.