Zé Brasileiro, português de Bragança

Como filha de emigrantes e tendo eu própria sido emigrante no Brasil, foi com surpresa e tristeza que recebi a notícia da morte de Roberto Leal. Não era dele a música que ouvíamos em casa, nem era ele que eu tinha como referência viva de sucesso português, apesar de, na altura não haver mais opções. Hoje, acredito que ‘ser português’ deve ser uma afirmação mais fixe para os jovens lusos, de primeira ou de segunda geração. Mas, na década de 80, o Brasil ainda não se tinha enamorado da Carminho e do Zambujo, a Maria João Bastos e o Ricardo Pereira não tinham feito nenhuma novela da Globo e o estratosférico Cristiano Ronaldo era só um bebé a dar chutes no ar. “Caramba - pensava eu - se é este senhor baixinho, loiro e bochechudo, que salta com os braços no ar, a referência cultural da minhas origens, é melhor evitar o assunto.” E agindo assim evitava também ter que ouvir mais uma piada de português.
  Eu estava enganada. Roberto Leal foi a referência mais popular da música portuguesa no Brasil, durante quase 50 anos e isso não é coisa pouca. Sem a melancolia do Fado mas com toda a energia do Vira, ele levou para o Brasil um pedaço importante das nossas tradições. Muito tempo antes da Ivete Sangalo nos pedir pela primeira vez para "tirar o pé do chão" já o Roberto Leal nos pedia para "bater o pé". Um merecido reconhecimento da sua popularidade chegou em 1995, quando foi parodiado pelo desaparecido grupo ‘Mamonas Assassinas’ com a música ‘Vira-Vira’.
  Enquanto crescia, lá ia acontecendo de o ‘apanhar’ na televisão, nos programas de entretenimento e em reportagens sobre Portugal. Era sempre uma presença alegre e simpática. O sotaque ‘abrasileirado’ e a incorporação no discurso de palavras e expressões da terra que o acolheu eram alvo de críticas por parte de alguns patrícios.  Nunca achei que fossem justas, o que ele fazia era apenas demonstrar que, tal como existe o ‘jeitinho brasileiro’, também existe o ‘jeitinho português’: uma capacidade única para a adaptação e a integração em culturas diferentes.
  Não ouvia as músicas nem acompanhava a carreira e a vida do Roberto Leal, mas era bom saber que ele estava por aqui. Foi sem surpresa e com alguma satisfação que li várias notícias confirmando que seria sepultado no Brasil. Fiquei também a saber que no seu próximo disco pretendia fazer uma homenagem a Carmen Miranda, portuguesa que, como ele, também nasceu muito, muito, muito longe de casa. Felizmente ambos descobriram o caminho e acabaram por ficar lá, ela no Rio de Janeiro e ele em São Paulo.