O anjo da vida

As coisas andam sempre à roda do mesmo: amor e poder na voz dos poetas ou então sexo e dinheiro no dizer dos pragmáticos. Vai dar tudo ao mesmo, não vos parece? Sexo, poder, dinheiro, amor – qual é a diferença? Anda tudo à volta disto. E depois a saúde, meu Deus, é sempre o mais importante. Não se faz nada sem saúde. Saúde da boa e longa vida e de repente eu penso no meu pai. Ele está doente e aquilo é mau, mas ele aceita os termos da existência com resignação e de vez em quando diz assim:

– Ninguém é deste mundo.

E o resto é uma dança com o tempo, igual para todos, um jogo perdido entre músculo, cabeça e anjo e o anjo é a fantasia. O que seria de nós sem o estupor do anjo, digam-me lá? O que seria de nós sem esse filho da mãe que não existe – o anjo?

– Nada.

As coisas – dizia eu – andam sempre à roda do mesmo e por isso às vezes acho que já não tenho mais nada para escrever, penso que esgotei todas as histórias e as memórias também, esfiapei os pensamentos e os sentimentos ao ponto da insignificância, fiquei vazio e deixei de acreditar, a minha vida não existe, os lugares e os acontecimentos da minha vida também não existem, é tudo mentira ou ficção, o passado, a ideia do futuro, tudo menos o presente, claro, porque eu estou aqui, raios me partam, estou aqui e escrevo, sim, escrevo e folheio desesperado cadernos antigos à procura do lado infinito das coisas, o único que me faz escrever.

Abri um caderno ao acaso e li:

– Aquele padre é mau – dizia uma mulher, referindo-se ao superior.

– Veio para África fazer o comércio que não consegue fazer na Europa – acrescentou um homem.

Eram apontamentos do tempo em que eu vivia em África e dava aulas de Português numa missão católica, alusivos a um assalto de alta envergadura ocorrido certa noite, em que um bando de ladrões invadiu a propriedade e provocou sérios danos, feriu gente, roubou dinheiro e uma viatura também.

Um dia após o ataque, eu parei num bar para beber uma cerveja e escutei a conversa de um grupo de pessoas, que se encontrava do lado de fora, nas traseiras do estabelecimento. Estavam satisfeitas por a missão ter sido assaltada.

– O assalto foi bom, para ele aprender que não é assim tão forte como pensa – disse uma mulher.

– O homem só quer saber de si e do dinheiro – acrescentou outra.

Depois, o grupo mudou abruptamente de conversa e pôs-se a falar de São Mulevala. Eu nunca tinha ouvido falar de São Mulevala. Pensei que era uma localidade, mas depois percebi que, além de ser uma localidade, era também o nome de um indivíduo, por sinal branco. Vivia numa gruta – disseram as pessoas lá fora – e nunca tomava banho. Muitos encaravam-no como santo.

E eu fiquei a matutar que tipo de branco faria uma coisa daquelas, quero dizer, meter-se a viver numa gruta em África, em pleno século XXI, se é que as pessoas lá fora diziam a verdade. Talvez fosse um louco. Ou talvez fosse um gajo com a mania da meditação. Um gajo que se perdeu no caminho para o nada. Um gajo zen. Ou um gajo om. Ou talvez fosse um escritor, pensei. Um daqueles escritores que vivem desaparecidos e andam sempre com a roupa surrada e um pouco suja, um tipo romântico, de letra dura, simples, misteriosa.

Fiquei sem saber.

Agora, que já passaram muitos anos, gosto de imaginar que afinal aquele gajo era eu perdido no centro do universo. De facto, as coisas andam sempre à roda do mesmo: músculo, cabeça e anjo. De resto, sou igualzinho ao meu pai – não sou deste mundo.