Beijinhos de verão

Nem corria uma aragem na noite que já devia começar as despedidas, mas mais parecia de boas vindas ao verão. A música de romaria soa mais ou menos ao mesmo independentemente da língua em que é cantada e quase conseguiam acompanhar o bailarico estrangeiro, que o vento, que não se fazia sentir, não podia levar para longe.

No meio da gritaria das brincadeiras dos miúdos, que também ecoam mais ou menos ao mesmo seja qual for a latitude, da música universal da romaria e do senhor que apregoava sortes numa barraca de rifas, uns estalinhos escutam-se e fazem esquecer a carne que tardava a sair das brasas e vir para a mesa.

São os beijinhos da Festa, não de verão - como daquela noite em terra que não era sua -mas do Natal. Quase que sente o cheiro a musgo naquele quase novo dia quente, sem brisa ou maresia. A infância bate com força e grita ‘Agora estás tu' ou ‘manda, não tem mal’. O ruído em excesso sempre lhe provocara um medo paralisante, mesmo o dos beijinhos da festa, afinal sempre tinham pólvora ou algo que se assemelhasse. Mas acabava por lá ir quando sentisse segurança e depois era uma alegria.

Não resiste e compra uma caixinha de estalinhos na barraquinha dos brinquedos. Pensa no homem lá da aldeia a quem passavam a vida a chamar para o presente, sem sucesso. O homem vivia, porém, amarrado ao que viveu, preso naquele tempo onde contava fora feliz. Muitas vezes questionavam-se se alguma vez o teria sido ou se a ideia da perfeição passada era um impedimento à satisfação do agora.

50 beijinhos de seguida no chão, o cheiro a carne e a estalinhos acabados de atirar ao alcatrão. Talvez o homem atormentado de passado precisasse de exorcizar a saudade, que na dose certa é a lembrança suave do caminho que fizemos até chegar ao agora. Nunca terá feito esse caminho. Uma melancolia invade-a. Sente-se triste pelo homem que não sabia viver no presente. Deve ser triste a fatalidade de não saber ser feliz hoje ou amanhã.  Talvez compre uma caixa de beijinhos e a mande a entregar.