O que vês em mim?

A Pat olhou para mim e perguntou: Duarte Caires, o que é que tu vês em mim? Ela estava triste naquele dia, abatida, sem forças, estava jogada no sofá, sem ânimo, cheia de vazio e era domingo sem sentido como só o domingo sabe ser, a noite a cair e a desfazer tudo antes do resto da semana, assim mesmo, olhos mortiços, corpo lasso, alma estática, distante e informe a perguntar:

– Duarte Caires, o que é que tu vês em mim?
E eu respondi:
– Vejo a mulher que amo.
E depois disse outras coisas que também vejo nela e que dão forma e conteúdo ao meu ser e sentir – esta matéria que escreve, este espírito que diz – coisas que ela tem e são mapas e trilhos da terra e do céu, caminhos certos para sempre, pistas de luz para o futuro, coisas onde a minha vida se concretiza, que é como dizer o meu passado está aqui, agora, no centro do teu coração, sou eu inteiro por ti e foi por isto que vivi, sabes, para viver o resto a partir daqui, o amor e o silêncio também, a felicidade e tristeza, o perto e o longe, o vento e a paz e tudo isto pode parecer muito, eu sei, pode parecer exagerado, absurdo até, incompreensível, de certa forma insano, mas é assim mesmo, assim mesmo, e será sempre assim – amar corta a respiração e dá vida.
A pergunta ainda ecoava nas paredes da sala, melancólica como o domingo a morrer:
– O que é que tu vês em mim?
E a resposta também:
– Vejo a mulher que amo.
Às vezes apetece-me falar a bandeiras despregadas sobre tudo e mais alguma coisa, dizer tudo o que tenho na cabeça e na alma acerca do que me rodeia, da esfera onde ponho os pés à estratosfera onde assento o pensamento, sem dó nem piedade, dizer a minha verdade, pura e humilde, sem filtro, arrogante e sarcástica, afirmar também o fogo e a chama que me queima e acalenta, não poupar nada, não poupar ninguém, expor-me sem medo à morte e ao desejo e atacar toda a gente, os políticos sobretudo, os que governam e os que querem governar, os padres de todas as religiões, os ricos e as pessoas que metem nojo, os pobres e os invejosos, os virtuais e os reais, toda a malta das redes sociais, a malta dos jornais e dos telejornais, o ser e a sua maldita aparência, os pequenos e os grandes, todos os sacanas e os santos também, toda a gente a eito, para o bem e para o mal, sempre a eito…
Mas não, não digo nada. Fico calado, bem calado. E não é por falta de opinião, não senhor. É por falta de amor. Porque eu só consigo escrever sobre o amor.
Podem dizer tudo o que quiserem, isto e aquilo e aqueloutro, o diabo a quatro e o raio que o parta, blá-blá blá-blá, e eu fico a ouvir, muito atento, mas depois não sei quem são, desconheço os seus amores e por onde andam os corações, não encontro a raiz dos segredos, não consigo contar quantas vezes Deus morreu dentro de cada um, nem quantas vezes renasceu, nem quantas vezes mais vão tornar a matá-lo.
O mundo passa e eu calo-me diante do vazio.
Só falo quando sinto amor.
Eu estava sentado no chão, com a cabeça sobre o seu corpo estendido no sofá. E então perguntei:
– E tu, Pat, o que é que vês em mim?
E ela respondeu:
– Tu vês-me.

Duarte Caires escreve à quinta-feira, todas as semanas