Mata-bicho

A poucos dias de iniciar uma viagem de férias a Espanha, a excitação de fazer as malas e cruzar a fronteira junta-se à expetativa dos pequenos-almoços no hotel. Sei que parece uma coisa superficial, mas para uma fundamentalista da primeira refeição do dia, não é. É coisa séria.

Conheço muita gente que não gosta de comer de manhã, que agarra qualquer coisa rápida ‘para não perder tempo’ e que, vivendo assim, passa muito bem, obrigada. Eu estou no grupo dos que têm a convicção oposta, que acham que um bom dia começa com um bom pequeno-almoço, sob pena de começar coxo.

Este apego ao café da manhã tem origens sentimentais e raízes na infância. Na minha casa, fazia parte de uma rotina diária indispensável e era o momento do dia onde havia a certeza de estarmos todos presentes, o que também dava mais liberdade às restantes horas. Era mais sagrado do que o jantar e do que o almoço de domingo com os avós.

Acordávamos cedo para preparar a comida, pôr a mesa e fazer o desjejum sem pressa. Deixávamos coabitar os aromas do café acabado de fazer, do leite entornado no fogão, do pão quentinho, da fruta madura e do limão espremido em cima da papaia. Cada um tinha a sua chávena, pessoal e intransmissível. Comentávamos o sabor do queijo e antecipávamos como ia ser o nosso dia. Partilhávamos uma fatia de bolo e os sonhos que tivemos à noite. Passávamos a manteiga de um lado para o outro juntamente com algumas preocupações e conselhos. Só depois disso, estávamos prontos para deixar a nascente e desaguar na escola ou no trabalho.

De vez em quando, por saudosismo, refiro-me ao pequeno-almoço como mata-bicho, porque era assim que o meu pai o chamava. Só mais tarde encontrei e surpreendi-me com esta definição:

"Diz-se que alguém ‘mata o bicho’ quando, pela manhã, antes da ingestão de alimentos, toma uma bebida alcoólica. Por extensão, é também usada para designar qualquer tipo de comida ou bebida que se ingere em estado de jejum."*

Nenhuma bebida alcoólica estava incluída nos meus pequenos-almoços mas nem por isso deixavam de ser eficazes a ‘matar os bichos’ noturnos que às vezes acordam connosco. E, para mim, continuam a ter esse efeito.
Não há sono inquieto que um café da manhã caseiro não suavize nem férias afortunadas sem um demorado pequeno-almoço de hotel.

*Fonte: Site Ciberdúvidas da Língua Portuguesa