Já cansa o desacordo com o acordo

Intelectuais e figuras de renome da nossa sociedade gostam de vir a terreiro alardear a sua aversão ao acordo ortográfico de 1990, eventualmente porque, após uma vida a escrever seguindo determinadas regras, não lhes apetece atentar em novos detalhes ortográficos. Regem-se, pois, pelo que está em vigor desde 1945 (com as alterações introduzidas em 1971 e 1973) e com desvios que o uso comum vai fazendo a regra. Editoras e imprensa optaram pela via pragmática, aceitando tudo e ressalvando em rodapé qual o AO seguido por cada um dos escribas. Ora, se a estes é permitido optar entre o antigo e o novo acordo, então, todos se sentem autorizados a fazer o mesmo, sendo que alguns misturam o que dá mais jeito de cada um deles e outros ainda inventam a seu bel-prazer. Um caldo caótico bem conveniente para justificar erros e atentados linguísticos.

Ora, verdade seja dita que, de facto (com ‘c’, também no novo acordo), o dito não é lei, já que isso dependia da sua ratificação pelos países da lusofonia, o que só aconteceu por parte de 3 deles. Para ultrapassar o impasse e permitir a sua implementação a Assembleia da República imitiu uma resolução (nº35/2008) e, a partir de então, são as normas desse acordo que os meninos aprendem na escola.

Também comecei por me rebelar: não entendi a razão de ser da unificação e simplificação da língua pretendidas com AO, nem algumas alterações introduzidas e recusei-me a segui-lo, convencida que seria anulado. Contudo, a partir do momento em que passou a ser obrigatório nos currículos escolares, entendi que seria irreversível e conformei-me, ainda que continue sentir confusão na hifenização de algumas expressões, me custe usar minúsculas para os meses do ano ou a ausência da acentuação de palavras, como pelo para pélo (de pelar), pelo e pêlo. Problema que se resolve atendendo à frase em que estejam inseridas, claro. Os prognósticos de confusões fonéticas em que se baseiam algumas rábulas humorísticas, são igualmente falsas questões, já que o contexto determina a forma como pronunciamos. Não será por se eliminar o ‘c’ que passaremos a confundir os espetadores da carne com os espetadores do filme, tal como ninguém diz de igual forma a palavra ‘cor’ em ‘ a cor azul do mar’ e ‘sei o poema de cor’. Já nos habituámos, tal como sucede com outras mudanças que aconteceram no passado. Quem se lembrará hoje de escrever farmácia com “ph”, tambêm, gêlo ou sôbre com acento circunflexo; ou de dobrar a consoante em ennegrecer, annos ou emmalar?

O AO, ainda que com os ajustamentos agora em estudo, avançará, não obstante a rejeição a que assistimos. Uma atitude, aliás, nada inédita, como evidencia o excerto com que termino, cuja grafia transcrevi tal como no original.

“Hoje está decretada uma graphia das palavras portuguezas; no entanto o próprio decreto é quasi uma irrisão por tantas razões, entre as quaes – 1º os livros oficialmente usados nas escolas são os únicos obrigados á disciplina da ortographia permitida; 2º há plena liberdade nos processos da escripta exta-official, de modo que desaparece a uniformidade que conviria e o ensino que o publico podia tirar da leitura dos periodicos e outras publicações; (…) Enfim, o que está passando entre nós, nesta matéria; é um cahos que não sabemos como ha de desaparecer, ainda mesmo que venham a ter decorrido muitos anos. (…)

Ainda que todos os indivíduos frequentassem as escolas, (…) estes estudantes, tornados homens e entregues a leituras de obras litterarias ou didaticas que não tenham adherido ás prescrições ortographicas recém-ordenadas, e, em seguida, arrastados por criterios seus, bem ou mal fundamentados, não ha meio de os conter na disciplina e, de dissidencia em dissidencia, os escriptos publicos continuarão a ser puras cobertas de retalhos. (…)

Não ficámos evidentemente melhor. Pouca gente tomou a sério o novo regime de escripta, (…) embora reconheça muita auctoridade, pelo saber, nos indivíduos levaram a cabo o trabalho de que os altos poderes do Estado os encarregaram.” (…)

In: Diario de Noticias, Funchal, 15 de abril 1912