Do tempo

Havia uma parede com jasmins que cheiravam quando o tempo era de cheirar. Havia um canteiro com corações e um jardim despreocupado e livre onde nascia o que era de nascer, no tempo em que devia nascer. Havia sol no verão e chuva no inverno. Havia redações com andorinhas dentro e um sol quentinho a antecipar alegrias.

Não pensávamos no que havia de ser a vida, porque, nesse tempo de inocências, a vida era agora e tinha a luz do presente. Não sabíamos que, sem sabermos, colecionávamos memórias que nos aqueceriam noutras primaveras que o inverno havia de esconder, porque é assim a vida: com manhãs e com noites.

Éramos livres, apesar das horas marcadas para voltar para casa, apesar dos limites:“não faças isto”, “não aceites nada de ninguém que não conheças”, “agradece tudo o que te fazem”, “cumprimenta o senhor”. Éramos livres, sim. E enfeitávamos, com brilho, os olhos dos pais quando o caminho da escola era demasiado longe para lhes mostrar as notas.

Olho, hoje, os miúdos e vejo-os tristes: nem primavera, nem sonhos de verão. Vejo-os de olhos fixos no telefone à espera de “likes” que doem, quando não chegam, à espera do momento de fama que lhe traz a fotografia do “Insta”, a frase do “Face”, o filme postado no “Youtube”…

Deixaram de ser livres, os jovens, mesmo que, agora, não haja horas para voltar. Deixaram de rir e de viver os dias de cada dia. Já não conhecem o cheiro do jasmim, nem beliscam os corações dos canteiros para provar o sumo azedo das flores; já não fazem redações a contar das andorinhas dos beirais, nem do desejo de banhos de mar, em praias antigas onde as vozes se misturavam com o rolar das pedras do calhau…

Continuam, porém, a desejar os fins-de-semana. O simples motivo de não ir à escola lhes basta ou o facto de andar de pijama o dia inteiro e de não ter horas para coisa alguma. Já não passeiam ao domingo, que isso é coisa antiga; já não almoçam com os pais, porque já perderam o treino de estar à mesa; já não visitam os avós, porque lhes falta a paciência; já não…

Estou a ficar velha, talvez. E chata. Mas eu era feliz e eles não são. Mas eu tinha o essencial e eles não. Mas eu tinha vida e eles não.