Tão perto de tudo

Tenho o mundo inteiro dentro da cabeça, todas as épocas, todos os lugares, e tenho-me inteiro dentro do mundo, todos os passos, todas as idades da minha vida. Às vezes o turbilhão é imenso e ruidoso, uma enxurrada sem fim, ninguém fica vivo e eu não consigo dormir, não consigo mesmo. Passo noites em claro preso a um só pensamento, uma só imagem, um só acontecimento oriundo de qualquer tempo ou espaço: coisas sem importância, coisas terríveis, coisas normais – tanto faz.

Sinto-me feliz. Sinto-me triste. Não sinto nada. Sinto tudo.

E penso assim:

– Espera, Duarte. Espera.

Já nem sei há quanto tempo penso assim, meu Deus!

– Espera, Duarte. Espera.

Desde menino, acho eu… Desde menino…

E depois acrescento:

– Olha que por mais longe que vás no futuro, serás sempre o teu passado.

E suspiro:

– Espera, Duarte. Espera.

E é na espera que o meu dia se concretiza.

Tudo o que sou, tudo o que tenho, a carne, os ossos, a alma também, as ideias e a filosofia sou eu aqui agora à espera. A poesia, meus parcos haveres, a herança e o lugar reservado no cemitério sou eu aqui agora à espera, o dinheiro que gasto à toa também. A família, as dores e a culpa, a floresta mágica e todo o meu querer ser para sempre, ser eterno, sou eu aqui agora à espera. A esperança e a salvação, todas as vezes que digo amo-te, todas as vezes que repito amo-te, o silêncio e a solidão em mim, em ti, em todos nós sou eu aqui agora à espera. A distância percorrida, os mares e os rios que atravessei, a verdade e o fingimento, todos os piratas, todos os amores, todos os horrores sou eu aqui agora à espera, toda a mentira do contar também. A história e a sua representação, palmo a palmo a terra que senti, toda a pessoa que toquei, os bichos, as árvores e as pedras, todos os espíritos e as almas penadas sou eu aqui agora à espera, as vidas passadas também.

Mais do que isto parece-me impossível.

E a seguir vem a morte.

Mas para já estou vivo. E espero.

No Porto Santo, de férias. Tão bom.

Ao fundo, avisto a ilha da Madeira e vejo gente conhecida por todo o lado.

Abro o livro e leio Paul Theroux:

“O desejo de desaparecer é a mola que impele muitos viajantes. Se a pessoa estiver completamente farta de que a mandem esperar, seja em casa ou no emprego, o ideal é ir viajar: serem as outras pessoas a esperarem por ela, para variar. Ir viajar é uma espécie de vingança por nos terem deixado à espera, por termos de deixar mensagens em gravadores sem sabermos o número da extensão da outra pessoa, por termos de passar uma grande parte da nossa vida ativa à espera – ou seja, pelas coisas irritantes a que está sujeito um escritor preso em casa. Mas a verdade é que esperar faz parte da condição humana.”

E eu, por mim, continuo aqui agora à espera… Tão perto de tudo.