A pedreira fantasma

Quem nunca errou involuntariamente? Quem pode dizer que, mesmo imbuído das melhores intenções, não acabou magoando alguém? Quem pode se afirmar imaculado de julgamentos ou conclusões precipitadas?

Eu mesma, tenho de ficar com a minha mãozinha envergonhada em baixo perante todas essas perguntas. Já me saíram grandes disparates da boca, totalmente inofensivos na teoria mas causadores de danos na prática, já fui muito inconveniente, tenho um repertório considerável de despropósitos e já achei que ia ter imensa graça, mas caí em desgraça. Tenho certeza que este tipo de situações vão continuar a acontecer mas, espero, em menor número e causando menos estragos.

Atire a primeira pedra quem nunca atirou uma pedra.

Devia ter uns sete ou oito anos quando apanhei da minha avó por ter mordido um copo e ficado com pedaços de vidro na boca. Não foi só uma palmada, que eu bem fiz por merecer, mas uma reação exagerada para o tamanho do susto que lhe causei. Não tenho nenhuma lembrança desse episódio, mas ouvi dizer que foi assim. Acredito piamente na versão que me contaram. Assim como acredito que, depois de aliviada, a minha avó desejou ser possível voltar a trás e reagir de outra forma.

Levante agora a mão quem nunca teve vontade de ‘desatirar’ uma pedra.

Eu levanto já a minha. Perante essa impossibilidade, optei por guardar comigo uma versão fantasmagórica das pedras que atirei. Quero crer que a maioria das vítimas até já se esqueceu da mossa que o meu lançamento causou, mas eu ainda me lembro. O calhau voou mas o seu peso ficou comigo. Construí uma espécie de pedreira fantasma e de vez em quando, com um objetivo pedagógico, revisito esse montinho, esse memorial dos meus erros.

É a existência dessa triste coleção, e a vontade de que ela não cresça muito mais, que me ajuda a ser mais cuidadosa nas palavras e nos gestos, e que me faz pensar duas vezes antes de novos arremessos.