O senhor dos Três Paços

Uma vez no mês de dezembro, há muitos anos, eu estava a passear sozinho na baixa de Lisboa e de repente começou a chover, uma chuva muito forte e fria também. Meti-me no primeiro bar que me apareceu pela frente. Era pequeno e estava cheio de gente, mas havia uma mesa vaga ao fundo, um recanto nada acolhedor, contudo muito melhor do que na rua. Sentei-me e estava ainda a ajeitar-me, quando ouvi uma voz:

– O jovem importa-se que me sente aqui?

Era um indivíduo baixinho, talvez com 70 anos, carnes compactas, todo embrulhado num sobretudo cinzento, chapéu de feltro preto na cabeça, que logo tirou, revelando uma testa interminável, o olhar manso, um sorriso de canto a canto.

Eu abanei a cabeça que sim e ele despiu o sobretudo, dobrou-o bem dobrado e colocou-o nas costas da cadeira, onde já tinha posto o chapéu, no mesmo instante pediu um galão ao empregado e começou a esfregar as mãos com delicadeza.

– Este Natal há de ser particularmente frio, não acha?

– É verdade – respondi, espreitando a rua.

– Ando inquieto – disse o senhor baixinho. – Desculpo-me com o frio, mas não é por isso. É outra coisa. Ando inquieto por outra coisa.

Durante a pausa que se seguiu, ele analisou o meu estado de espírito, tentando apurar o grau de disponibilidade para o escutar. Os olhos escuros, muito juntos na face redonda e branquinha, atravessaram os meus quase até a porta do labirinto.

– Não tenha medo – disse ele. – Só preciso de falar com alguém sobre o que me inquieta e tenho a certeza que não há melhor do que um desconhecido para me ouvir.

– Esteja à vontade – respondi. – Tempo não me falta.

O senhor baixinho sorriu e voltou a esfregar as mãos gordinhas com uma suavidade quase feminina. Depois, emitiu um oh de espanto e disse:

– Estou para aqui a falar e ainda não me apresentei. Chamo-me Alberto dos Três Paços. – E logo de seguida esclareceu: – Paços com c cedilhado, como Paços do Concelho ou Paços Reais ou Paços Episcopais.

Fiquei tão espantado, mas ele tirou da carteira o Bilhete de Identidade, a dizer que já estava habituado a fazê-lo, porque ninguém acreditava no nome, a dizer também que o documento era autêntico, veja veja, dizia ele, dos Três Paços, eu já estava convencido, mas ele insistia veja veja, nascido sob o signo de Escorpião em 1921, altura um metro e cinquenta e sete centímetros e esta foi uma medição feita sem sapatos, como deve ser, veja veja, dizia ele cada vez mais entusiasmado, veja veja, estado civil solteiro, mas isto não quer dizer que me dê mal com as mulheres, como certas pessoas pensam, dou-me muito bem com as senhoras, fique sabendo, estive até para me casar com uma rapariga tão linda, mas tão linda, há muitos anos, há muitos anos…

E então calou-se e ficou triste e pesaroso e eu perguntei:

– Por que não se casou?

Lá fora começou a chover outra vez. Uma sombra fria entrou no café e estendeu tentáculos húmidos sobre as coisas e as pessoas, cobriu as luzes e o brilho dos cristais, dos copos e das garrafas com um choro lento, um choro de quem já não existe, um choro de quem se encontrava perdido no meio do nevoeiro e depois deixou de existir e ali permaneceu silenciosa, presa em todos os movimentos e em toda a ausência de movimento. A sombra entrou também nos olhos do senhor dos Três Paços e fez-lhe anoitecer a alma, como se ele fosse aquela pessoa que chorava lentamente do meio da inexistência.

– Por causa dos sonhos – respondeu ele, desconsolado e distante.