A Serena Cordeira

“De Lisboa embarcou   
Uma Serena Cordeira,
A Virgem da Encarnação,
Para a Ilha da Madeira.
Três dias andou no mar:
A Virgem foi marinheira!”

 

Assim começa o rimance, na variante coligida pelo Padre Alfredo Vieira de Freitas, descrevendo a improvável viagem de uma escultura da Virgem Maria, do estuário do Tejo para a longínqua paróquia madeirense de São Jorge. O evento, preservado por tradição oral em rimas recitadas (e cantadas) de geração em geração desde o século XVII, marcaria a memória colectiva insular de tal forma que, ainda hoje – em plena época digital – é possível encontrar quem os saiba de cor pelos lugarejos dispersos ao longo do ancestral itinerário concretizado pelos romeiros.

A mais antiga referência documental à presença da escultura em São Jorge encontra-se num registo de óbito de 1632. De facto, a enraizada veneração à Virgem da Encarnação – Maria grávida – num tempo em que o parimento assumia o risco real de morte iminente, viria a perpassar toda a documentação paroquial e a marcar a vivência devocional desta comunidade. São inúmeras as menções ao altar da Senhora, lugar cobiçado para as súplicas de sufrágio e sepultamentos de ilustres – nas suas três existências, repartidas por outras tantas construções, desde a primitiva segunda igreja do Calhau, até à presente igreja matriz, quarta sede paroquial na sucessão dos tempos.

 

“Desembarcou no calhau,
Em pino do meio-dia;
Logo foram render graças
Os frades da Companhia.”

 

A narrativa acompanha o percurso da inusitada procissão, relatando o apoteótico acolhimento da imagem no Funchal, com esta primeira menção aos jesuítas, num lirismo entregue às hipérboles dos grandes momentos. Os “padres de São Pedro estavam roucos de chorar”, “as freiras de Santa Clara estavam postas no caminho”. O ambiente é de solenidade festiva. A imagem continua o seu caminho rumo ao Norte, subindo ao Monte.

 

“A Virgem chegou ao Monte,
A Virgem mandou entrar:
Que se tirasse para dentro,
Que lhe queria falar…”

 

A Virgem do Monte fala à Virgem da Encarnação. Com cândida intimidade, a rima popular deixa a Virgem entregue aos próprios pensamentos, falando consigo mesma no coração mariano da Ilha.

 

“Oh Virgem da Encarnação,
Anastrai vossos cabelos,
Que ides passar as serras,
Nos mais altos arvoredos.
Oh Virgem, minha Senhora,
Entoucai vossos toucados,
Que ides passar as serras,
Entre loureiros cerrados.”

 

A romaria prossegue pelos trilhos serranos. A Senhora faz-se companheira de viagem na agrura da travessia. Há, nesta presença materna, a justificação que escapa ao risco quotidiano, ocupado pela necessidade. O assombro do abismo reveste-se da convicção de um amparo na marcha vacilante até um destino certo. E, assim, avança a Senhora: partilhando a sorte dos simples e circunscrevendo o mapa das ancestrais venerações.

 

“Chegando para o Cedro Gordo,
Numa casinha palhaça:
– Deitai-me a vossa bênção
Senhora, cheia de graça!
A Virgem chega a São Roque
Com sua saia de ensaial,
Certo tinha por vizinha
A Senhora do Faial.”

 

Dezenas de versos, sobrepostos à lembrança fragmentada de santuários e marcos desaparecidos, traçam o retrato pitoresco de uma Madeira há muito imersa na nébula da incerteza. Esboçam, em linhas rudimentares, um retrato dos temores e aspirações dos nossos antepassados. Do muito que fomos. Do muito que mudamos. Do muito que permanece. E, no seu altar nortenho, a Serena Cordeira continua a olhar o Sol nascente, deixando que a seus pés suceda a peregrinação de uma outra humanidade.

 

“Oh Virgem da Encarnação,
Que em Lisboa foste feita:
– Deitai-me a vossa bênção
Com a vossa mão direita!
Oh Virgem da Encarnação,
Que em Lisboa foste nada:
– Deitai-me a vossa bênção
Com a vossa mão sagrada!”