A insustentável leveza do ser

Aproprio-me desta frase de Milan Kundera que também serve de título a um dos seus mais conhecidos romances pela sua beleza fonética, porque a beleza das palavras não se reflete apenas naquilo que dizem mas também pelo som que constroem, quando alinhadas, e pelo convite que nos fazem à reflexão.

Repito-a vezes sem conta, pesando cada palavra, o seu significado e objetivo, não podendo nenhuma delas ser analisada sem as ponderarmos no seu conjunto.

E nesta reflexão faço uma viagem ao passado, aos tempos em que a leveza da vida levava-nos a voar por um mundo perfeito, onde tudo era sonho, tudo era simples e descomplicado.

De facto não há seres mais leves do que as crianças, pelo menos aquelas que tiveram a sorte, como eu, de nascer numa família bem estruturada e num canto do mundo onde se pode crescer em segurança e tranquilidade.

Essa tranquilidade que nos parece sufocar em plena juventude, quando ansiamos por maiores desafios e aventuras, mas voltamos apreciar quando subimos mais uns degraus na escada da vida.

A Madeira cresceu, desenvolveu-se, criou novas oportunidades para a sua população, abriu-se ao mundo e tornou-se num ponto de referência no turismo mundial.

Hoje somos, repetidamente, o Melhor Destino Insular da Europa, e já fomos o do Mundo. Não sentimos a insularidade como uma fatalidade, mas como uma característica que nos distingue dos que vivem em território continental, mas que não nos inferioriza. Somos um ponto minúsculo no planeta, mas se quisermos podemos conquistar o Mundo, muitas vezes sem precisar sair da ilha.

Hoje, ser madeirense não é estar condenado à barreira do oceano, é poder crescer cá dentro e lá fora.

E tudo isto sem perdermos esse bem maior, que é o da segurança e da tranquilidade, ao mesmo tempo que acompanhamos o desenvolvimento social, económico e tecnológico.

Negar esta realidade, que tem vindo a ser construída nos últimos 40 anos, é querer negar o óbvio.

Pode-se não gostar dos atores políticos, mas mais difícil é esconder as evidências desse trabalho que tem sido feito.

Por muitos discursos que se façam, por muitas promessas que se deixe, por muitos sorrisos e pancadinhas nas costas que se ofereça, no final o que conta é aquilo que se realiza, o que se fez em prol da comunidade e os ganhos individuais e coletivos.

Se no foro pessoal, precisamos, de vez em quando, de sentir aquela leveza que nos movia enquanto crianças, no campo coletivo, mais do que insustentabilidade, o que é preciso é suster os pilares do crescimento e do desenvolvimento sustentável, substituindo a leveza pela firmeza, mas mantendo o foco no ser, que se traduz em todos nós.