It's all about seconds

A vida às vezes tem destas coisas. De repente, tropeçamos numa frase que pode estar escrita num livro, numa parede, num anúncio. É o caso da frase que dá título a esta crónica. Uma publicidade a uma coisa tão trivial e também tão essencial como o são os relógios. No anúncio da Chanel, uma série de pessoas fala de momentos (segundos) cruciais. De momentos felizes, às vezes melancólicos, às vezes sem qualquer significado, às vezes capazes de alterar toda uma vida. No final, uma só conclusão: it's all about seconds. Ou seja, é tudo uma questão de segundos.
Deixei de usar relógio há muito tempo, mas a ausência do objeto não implica a ausência do tempo. Do tempo que nos marca e pelo qual somos marcados. Não implica sobretudo a profunda convicção de que é isso mesmo: toda a nossa vida é uma questão de segundos. Tudo pode ser alterado em segundos.
Costumamos ampliar esta noção para meses, anos, décadas. Ninguém costuma recordar o segundo certo, o aniversário do segundo em que qualquer coisa se alterou para sempre. Mas, na verdade, esse segundo é o mais preciso de toda a contagem do tempo. Sim, é ao segundo que vivemos e é ao segundo que morremos nas várias formas que a morte tem.
Essa contagem mínima do tempo faz toda a diferença. O segundo em que nascemos, o segundo em que olhamos pela primeira, o segundo do choro inaugural e vivo, o segundo do músculo que aciona o sorriso, o segundo do primeiro oxigénio nos pulmões, o segundo em que o último ar é expelido antes do silêncio. O segundo do silêncio.
It's all about seconds! É verdade! E perante a milimétrica e certa medida do segundo, ficamos com vontade de saber o segundo certo. Qual foi mesmo aquele segundo daquela tarde de fim de agosto em que o mecanismo da improbabilidade, movido pelas máquinas infernais na contemporaneidade, inaugurou o encontro? Qual foi o segundo do "minuto em que voltaste a ser pessoalmente feliz"? Que segundo era na estação do abraço primeiro e do sorriso? E o segundo da primeira despedida? E o segundo da vontade de voltar atrás?
Ou muitos segundos depois, qual foi o segundo em que percebemos que já não havia, nem queríamos voltar atrás?
E o segundo da intimidade, e o segundo do amor, e o segundo de aceitar a felicidade nova? E o primeiro segundo na casa? (Não me posso esquecer de assinalar o último).
E depois que segundo era quando percebemos que a força e a vontade não foram suficientes para dominar o segundo final que se anunciou naquele dia em que fomos ao mar para tentar segurar a vida? O segundo do sorriso da fotografia que havia de servir de despedida final.
Depois desse segundo, foi mesmo tudo uma questão segundos. O segundo da não memória, o segundo da perda da geografia familiar, o segundo da perda de nós mesmos. Tudo contado até àquele último segundo que tentei depois recuperar sem a precisão do relógio. Que segundo foi? É que foi mesmo só um segundo antes do silêncio e da ausência funda e profunda do fim.
It's all about seconds. Podem passar anos que será sempre uma questão de segundos. Nada mais do que isso. Não é preciso mais para começar e terminar um mundo.