Bolo preto

Estava reservado a dias de festa. Depois da amassadura de pão de sábado, que havia de dar para a semana inteira e acabar em torradas em cima das brasas da fornada seguinte, era acomodar o pão nas toalhas num ritual de perfeição que é difícil de reproduzir, e meter mais lenha ao forno, cujas brasas seriam varridas para um cantinho, deixando espaço para meter as formas.
Depois era começar a bater o bolo, que era na verdade sempre plural. O cheirinho a mel, noz moscada e canela misturavam-se com o do pão que se amassara e tendera horas antes e aguardava para ser encetado. Era um deleite dos sentidos, ainda que não houvesse tempo para contemplações, naquela linha de montagem, com tempos certos para tudo. As claras em castelo batidas à mão não podiam entrar antes do fermento e mais uma e outra regra seguida com o rigor às ordens da matriarca da família, general na cozinha e nas vidas de todo o clã.
Com as formas untadas e as mãos pequeninas peganhentas da margarina, ficavam a olhar embasbacados a avó que se despedia da massa líquida antes desta entrar na portinha para ficar o tempo certo com uma lengalenga impronunciável. Era assim entre murmúrios aquele ato de fé que causava estranheza e espanto e deixava a canalha arregalada.
E era tempo de comer uma fatia de pão fresco com manteiga que se derretia e às vezes escorria pelas mãos quase a chegar aos cotovelos e era acompanhada de uma xícara de café. A avó dizia xícara e outras palavras que faziam rir como suera, que era um casaquinho leve, e o café – que mais não era que uma mistura de cereais e alguma cafeína - não estava banido aos mais pequenos.
Era uma alegria quando se tirava os bolos do forno. Natal, Espírito Santo, festas do Santíssimo e de Nossa Senhora da Graça. E talvez por isso aquele cheiro a bolo preto exalasse a sagrado. Um dia o bolo não cresceu. E a general cada vez menos de bolos e dos pequenos que, entretanto, tinham ido fazer vida para outras paragens, desculpou-se que se tinha esquecido do fermento. Que a cabeça já não é o que era e os olhos arregalados agora de gente grande como quando ouviam a reza entre murmúrio e canção naqueles sábados de alegria. Era o primeiro sinal da doença com nome esquisito, que baralhava as memórias novas e velhas até as levar por completo, como um forno com brasas varridas para um canto à espera de formas, em vésperas de dias de festa.
E toda a gente sabia sem reza os bolos não acertam. É como a tropa da família quando marcha sem general.