A hora dos regressos

Gosto do entardecer. Aquela hora em que o sol leva o seu fulgor para lá do horizonte, tingindo-o de incandescências que se vão apagando no azul do mar. O barro vermelho dos telhados, descendo em escadaria pela encosta, guarda um calor morno que envolverá os que sob ele se abrigam. As filas de trânsito, como carreiros de formiga nas vias principais, somem-se pelas ruas que nos levam a casa. É a hora dos regressos, dos reencontros. As casas animam-se com os passos e as vozes dos que nelas habitam.

Se é verão as cortinas esvoaçam com a brisa, num aceno de vela desfraldada sem pressa de navegar. O tilintar de loiças e talheres chega até nós num prenúncio do conforto da comida em preparação. Algumas risadas e gritos divertidos revelam as últimas brincadeiras de crianças que não tardarão a ter de recolher. Por dentro, nem todas as casas celebrarão a alegria, mas disso não damos conta; afinal, a tristeza, a dor e a miséria preferem acabrunhar-se no silêncio.

Para descontrair ou crentes na promessa de saúde mais firme, a solo ou na companhia de um amigo, humano ou bicho de estimação, caminhantes de fim de tarde cruzam-se e dividem um sorriso com os rostos que já se tornaram familiares. Nas esplanadas, amigos partilham conversa e uma cerveja à volta de um pires de tremoços reluzentes.

Se é inverno, as janelas fecham-se ao frio e todos os sons se tornam mais ténues. Os passos apressam-se e os cumprimentos entre caminhantes habituais, agora em menor número, transformam-se em comentários a sublinhar os rigores meteorológicos. Um barco de cruzeiro desliza altivo, iluminado como metrópole de abastança e felicidade, indiferente às ondas que provoca e fazem baloiçar o barquito de cor garrida, que por ele passa, carregado de redes e de suor. Quando o vento sopra, esgarçando as nuvens no céu e as árvores na terra, espalha-se um roçagar de folhas correndo azoratadas pelo chão. Quase sem erguer a cabeça, vislumbramos, lá no alto as gaivotas que subiram do mar apenas para se deixarem vogar naquele rebuliço de aragem que só elas parecem apreciar. Ouvimos-lhe o piar, talvez exteriorização da sua alegria, mas aos meus ouvidos impregnado de melancolias urdidas no testemunho de séculos de despedidas e naufrágios. Afundamos as mãos nos bolsos e estugamos o passo na ânsia de abreviar o caminho.

E regressamos; regressamos àquele reduto onde tudo nos é familiar. Onde temos o mapa preciso de cada objeto e dos significados que lhe estão associados, catalogados nas estantes invisíveis onde arrumamos as memórias da vida. E nesta permanência, que vamos compondo ao longo dos anos, ganhamos um apaziguador sentido de perenidade que nos acalma, porque nos distrai do jugo de sermos mortais. Juntamos a serenidade do fim da tarde cujas imagens trouxemos connosco, orladas pela moldura do mar, brando ou agitado, azul-cobalto ou cinza-antracite, mas sempre presente no horizonte da ilha. Serenamos, num reencontro connosco que nos permite recentrar para podermos conquistar o dia seguinte.