Luanda cidade mulher

Hoje é quinta-feira. Pois. Quinta-feira. E às quintas-feiras acordo sempre a pensar na Madeira. É que à quinta-feira, logo pela manhã aqui em Luanda, a mais de seis mil quilómetros de distância, recebo um recado do JM. Uma mensagem via e-mail: “Lembrete para o artigo de amanhã”. E lá vou eu, rapidamente, para não falhar, em direcção ao PC, escrever a crónica de sexta-feira. Como esta que, espero, estejam a ler.

É de Luanda que vos falo, uma vez por semana. Desta Luanda/cidade de muitos cambiantes. Ora explodindo de louco calor, ora fresca e calma como o fruto da pitangueira. Luanda é cidade no feminino. Imprevisível. Por vezes contraditória. Inconstante. Mas sempre surpreendente. Uma mulher/menina de 400 anos. Sempre nova, apesar da idade.

Luanda é uma mulher. E nem todas as cidades são mulheres. Nem todas as cidades. Luanda é.

De manhã acorda cedo e nua. Lentamente espreguiça as pernas, as ruas de muitos torneados. Longas. Curtas. Sinuosas. Direitas. Largas. Apertadas. Ruas, pernas que se dão, que se entregam, que se deixam possuir. Que possuem.

Veste-se devagar. Não se cobre de panos nem veste saia nem calças. Veste-se de gente. Homens. Mulheres. Meninos a caminho das escolas. Carros. Pó. Fumo.

Depois faz-se à vida. Luanda não é mulher da vida, não. É vida. Mulher de vida difícil. Dura. Violenta não poucas vezes.

Luanda é mulher. Barulhenta. Refilona. Oportunista. Aproveitadora. Linda para uns. Carrancuda e mal-humorada para outros. Luminosa ou taciturna, sombria, jovial, louca.

É sobre esta Luanda que vos tenho de falar à sexta-feira. Motivos? Muitos. Notícias de todos os géneros. Boas. Más. Velhas. Repetidas. Inventadas. Deturpadas. Mal interpretadas. Razões? Mil. Boas. Assim-assim. Mais ou menos. Mas sempre ininterruptas. Intermináveis.
Alguém já comparou Luanda a um tsunami. Com gente que, pela madrugada, com o sol ainda adormecido, invade a cidade em ondas vindas dos arredores. Dos dormitórios. Dos de chapa e papelão, dos condomínios e das novas centralidades. De carro. A pé. À boleia. De táxi. Espremidos nos “hiace” azulinhos vulgo kandongueiros. Nos carros particulares feitos taxistas de ocasião. Fazendo, como se diz em bom angolano, “processo” que é como quem diz transportando, sem licença e não muita segurança, passageiros de todas as categorias. E depois há as motos dos “kupapatas”, esses malabaristas do trânsito, sem capacete, de máquinas fumegando e enchendo as ruas de ruídos arrancados a motores que funcionam por autênticos milagres, transportando passageiros e passageiras colados às costas. Agarrados com ambas às mãos.

É desta Luanda que vos falo a cada sexta-feira que passa. É desta Luanda/Mulher que ou se ama ou se detesta, mas que nunca se esquece nem renega. Desta Luanda. Cidade mulher.