A sorte perdida de minha mãe

Uma mulher que sabia ler o destino na palma da mão disse à minha mãe, quando ela era nova, que haveria de morrer num país estrangeiro, coisa muito fácil de prever naquela época, não era grande façanha, pois a emigração estava a esvaziar a ilha. Qualquer pessoa podia dizer à outra, com ares de vidente e boa margem de segurança, tu vais morrer longe desta terra, e se conhecesse a família do visado, a raiz da miséria, a luz do sonho, melhor ainda, podia até indicar o local exato do fim.
– Vais morrer no Curaçau.
No caso da minha mãe, a bruxa falhou. 
Nem sequer ao Porto Santo ela foi. Nunca viajou para fora da ilha. Viveu poucos anos e morreu aqui, na terra natal, tantas vezes o sítio mais distante e estranho e inóspito à face da terra, maravilhoso e profundo também, depende do ser e do ter, mas sempre um bom lugar para se morrer.
Vivi a infância com o mundo a pulsar dentro de mim e a fazenda do meu avô era o centro do universo, ali apertado entre a Rampa, o Laranjal e o Jamboto, era o ponto onde assentava a agulha do compasso que desenhava os círculos da minha imaginação, a pedra filosofal, a base da Excalibur, era o cofre dos medos e o ouro da alma, a floresta mágica, toda a alquimia.
À parte isso havia apenas as excursões da paróquia – meia volta à ilha, às vezes uma volta completa – e os passeios de domingo à tarde no carro do meu tio Humberto.
Depois veio a adolescência e com ela o fascínio por livros e mapas, veio a poesia e o desejo de partir, a voz e a escrita – uma forma redonda e absoluta de viagem – e a certa altura, vendo que minha mãe não ia mesmo atravessar fronteiras, comecei a pensar que a sina dela seria afinal a minha – uma herança incomensurável – e idealizei mil formas de morrer nos cinco continentes. 
Ainda hoje dou comigo num apartamento miserável, a cair de podre, algures numa cidade sul-americana, por exemplo, num cruzamento de má fama, cheio de bares e casas de putas, cores garridas, cheiros azedos, estou estendido na cama, observo o movimento da ventoinha no teto, a janela está aberta, cai a noite e o ruído da rua é intenso, o calor imenso, oiço passos no corredor, dois gajos de mau aspeto, estão armados, pistolas e navalhas, restos de sangue na roupa, batem à porta…
O mais longe que fui nessa época foi a Torremolinos e já nem sequer me lembro muito bem daquilo. 
Depois amadureci, verde para sempre, ainda sei construir joeiras e atirar o pião, fiz turismo em vários países nos dois hemisférios e nunca quis ser emigrante, longe de mim tal lonjura, nunca almejei a fortuna, quero lá saber, além disso nunca tive dinheiro para nada e nunca percebi o mundo também. Tudo o que eu queria era saber viajar. 
Mais tarde embrenhei-me em África como voluntário numa missão católica e seguir vivi por lá à toa, posso mesmo dizer vagabundo, cinco anos vadio na contracosta. Foi a concretização do meu imaginário mais antigo e original. Eu tinha de fazer aquilo, tinha de sentir aquilo e agora tenho de viver com aquilo – é parte de mim e da viagem para o fim, o destino na palma da mão, é a sorte perdida de minha mãe.