A poesia do dia

Peço ao querido leitor que me desculpe a decisão unilateral de apresentar-lhe hoje uma poesia em vez de uma crónica. Os mais compreensivos poderão chamar-lhe uma crónica poética. O facto é que ultimamente tenho consumido muitos poemas e dei por mim a não ser capaz de transbordar outro registo que não este. Feita esta súplica, segue-se a poesia do dia.

“UM

Um senhor escreve num caderninho

Uma folha lentamente cai ao chão

Um cigarro que sabe mal

Uma saudade ao olhar para mão.

Um café ainda fechado

Uma vontade de dizer “hoje não”

Um pensamento recorrente

Uma nuvem furada por um avião.

Um desenho à espera de começar

Uma receita de bolo, também sem ação

Um papel que grita “urgente”

Uma quase quase iluminação.

Um vento gelado

Uma cabeleira sem inquietação

Um livro na última página

Uma fotografia de um clarão.”