As escarpas da ruína

O senhor Caires não sabe que fim levou o amigo Vladimiro Rocha, desaparecido em África há cerca de dez anos. Mas também nunca fez nada por saber. Esta é a verdade. O senhor Caires sabe apenas que Vladimiro Rocha viajou para lá, porque se cruzou com ele por acaso no dia da partida e ele contou-lhe, indicando até a região em concreto para onde ia. Depois pediu-lhe que não dissesse nada a ninguém.

– É segredo! – disse Vladimiro Rocha de olhos arregalados. – Um segredo terrível!
O senhor Caires abanou a cabeça que sim, mas não acreditou em nada. Pensou que o amigo estava, de facto, cada vez mais louco e desmiolado. Era o que toda a gente dizia e com razão. Ainda assim desejou-lhe boa viagem e boa sorte. Depois esqueceu o assunto.
Um ano mais tarde noticiaram o desaparecimento de Vladimiro Rocha e então o senhor Caires voltou a pensar em tudo aquilo. Primeiro ficou preocupado, mas logo a seguir encarou o amigo como um peixinho e o continente africano como um vasto oceano. E disse em voz alta:
– Não há nada a fazer.
Não raras vezes, porém, ele equaciona a possibilidade de partir para África à procura do amigo, a ver se o encontra ou se descobre pistas sobre o que lhe aconteceu, vivendo uma aventura como a de Henry Morton Stanley à procura de David Livingstone, algo assim muito intenso e destemido, com final apoteótico também:
– Dr. Livingstone, I presume?
Indo determinado através das florestas do continente negro e da natureza humana, a abrir caminho com uma catana, sempre a direito, do paraíso ao inferno, para lá de tudo e mais alguma coisa, até à raiz do ser:
– O horror... O horror...
(Ai ai Conrad!)
Quando pensa nisto, o senhor Caires treme dos pés à cabeça como se fosse um miúdo e estivesse a ler um livro muito bom, daqueles que transportam a pessoa irremediavelmente para o meio da ação. Contudo, a hipótese de partir para África é puro delírio.
Viagens, aviões e países exóticos horrorizam o senhor Caires. A seu ver, o mais que pode acontecer a uma pessoa que se mete em aviões e viaja para países exóticos é perder-se de corpo e alma, afundar-se em paixões loucas e violentas e apanhar doenças terríveis. Por isso, não vale a pena. É um risco demasiado grande para quem tanto ama a leve passada do quotidiano. E depois a juventude ou até mesmo os seus frescos e possantes quarenta anos já passaram há muito...
O senhor Caires suspira, aliviado. Hoje, como sempre, a fabulosa ideia de partir para África desfez-se no vazio. É melhor ficar aqui parado, bem melhor, a contemplar o céu e o mar da ilha, o infinito da pedra e da árvore e do tempo também. Vejam só a beleza, meu Deus! Sim, mais vale cruzar a cidade inúmeras vezes no mesmo sentido do que dar um único passo fora daqui, debruçar-se sobre as manhãs perfeitas, sair todos os dias em passeio circular, afogar medos, serenar angústias, voltar à noite extasiado, disponível para sonhar, certo de permanecer para sempre, sempre, sempre aqui.
O senhor Caires abeira-se da varanda do apartamento. Olha em redor feliz e tão feliz, mas tão feliz mesmo, encontra-se com uma súbita e inexplicável tristeza, fogo na paisagem, um pensamento inusitado que lhe diz assim:
– Tudo isto são escarpas da ruína.
– Bela imagem – afirma o senhor Caires. – Bela imagem.