Como dizer tudo isto?

Uma vez sonhei que andava à procura de um pássaro morto numa floresta de bambus. Foi numa noite do fim da época das chuvas em ano que não consigo precisar e eu estava longe de casa, muito longe, debruçado sobre o Trópico de Capricórnio e mais ainda sobre mim – abismo de carne e alma e coração. Quem tinha matado o pássaro – uma andorinha da serra – fora eu. E fizera-o por maldade. Nada mais.
Naquele momento sentia a pressão da iniquidade bem forte no sangue, ela fervia e depois transbordava, era frio na pele, fúria no pensamento, fogo no desejo. Eu tinha cometido um crime e a maldade jorrava-me pela boca, espalhava-se pela floresta, inundava o chão que eu pisava, um chão negro e viscoso, um chão que me prendia os pés e impedia de caminhar, um chão que me queria engolir vivo.
– Onde está o pássaro? – gritava eu. – Onde está o pássaro?
A minha voz ecoava elétrica e sem fim no bambuzal, cada vez mais desesperada e disforme, mas este devolvia-me apenas silêncio. Um silêncio fantasmagórico, tétrico. Um silêncio como o que se ouve entre o rebentamento de bombas no meio da guerra e provoca vertigens e náuseas, porque é o silêncio dos mortos e dos loucos que produzem a morte. Um silêncio também igual ao silêncio de Deus depois do pecado consumado – eterno, vazio.
– Onde está o pássaro? – gritava eu. – Onde está o pássaro?
De repente tudo começou a rodopiar e os bambus transformaram-se em fumo, o fumo formou demónios e os demónios uniram-se e precipitaram-se sobre mim.
Acordei aos gritos:
– Onde está o pássaro? Onde está o pássaro?
Eu estava perdido, não sabia o caminho de regresso à realidade ou talvez a realidade não conhecia o caminho de regresso a mim, estava perdido, enlouquecido, cheio de medo e a tremer, a gritar, sempre a gritar.
Quando por fim me acalmei, ou seja, quando tomei consciência de que aquilo tinha sido um pesadelo, dei início a uma longa reflexão, a pensar obstinadamente que o mal que se faz aos outros, sejam homens ou animais ou árvores ou pedras, mercê da nossa ignorância, incompreensão, intolerância, incúria e o mais que seja, pode muito bem resultar em horrores inarráveis, capazes de nos esmagar e destruir até mesmo ante a sua inexistência.
– Por que raios ando a pensar isto? – dizia para mim. – Por que raios ando a pensar isto?
À medida que o meu despertar decorria, um despertar lento e esforçado, as imagens do sonho começaram a esfumar-se, absorvidas pela penumbra arenosa da noite e pela fina luz do dia, diluídas na forma e na solidez das coisas materiais e também na imaterialidade infinita das horas e dos espíritos, até que se desintegraram por completo e passaram a ser parte intrínseca da origem do universo.
E depois eu concluí, sem mais nem menos, que não há desculpa para coisa alguma. A vida é assim mesmo. Ponto.
A partir daqui fiquei mais descansado e ao correr do tempo quase esqueci o pássaro morto na floresta de bambus – uma bela andorinha da serra que eu matei por pura maldade. Nada mais.