Deus ex machina

Quando eu vivia em África ouvi falar de um tipo chamado São Mulevala dos Olhos Azuis. Contaram-me que era alto, esquelético e desengonçado. Andava como se estivesse a cair, a precipitar-se em abismos invisíveis. Tinha barba grisalha, muito espessa, mais volumosa do que comprida, e o cabelo era ralo e longo e cinzento.
São Mulevala usava roupas esfarrapadas e dele emanava um cheiro a erva podre, terra molhada e lodo dos pântanos. Também era comum cheirar a formiga viva ou a escaravelho morto em início de putrefação. Às vezes, muito raramente, cheirava a flores silvestres em estado viçoso, a feno e a vento quente do mar.
Quando as pessoas se aproximavam dele sentiam frio e calor ao mesmo tempo, como se fosse gelo e fogueira e nada, sobretudo nada.
Diziam que São Mulevala era um branco que tinha enlouquecido com febres e feitiços. Um dia, nos alvores do século XXI, levantou-se de madrugada e pôs-se caminhar para este, sempre para este, primeiro ao longo da rua onde morava e a seguir por veredas e veredas, embrenhou-se na mata, sempre a direito, sempre a fundo, e perdeu-se.
Quando deu conta de si estava diante de um monte que parecia uma enorme tigela de boca para o chão. Era a única elevação nas redondezas. Uma ilha de pedra no meio da savana. Andou às voltas e descobriu uma caverna. Meteu-se lá dentro e transformou-a em casa.
Mais tarde veio a saber por uns camponeses que o monte se chamava Mulevala e que Nossa Senhora tinha aparecido pelo menos três vezes no topo. Viram-na envolta num manto verde, trazendo ao colo o Menino Jesus. Ao lado pairava uma pia batismal da Idade Média, coisa deveras assombrosa, pois quem viu teve muito medo que se desprendesse e lhe caísse em cima.
Ao cabo de seis meses o povo começou a tratá-lo por São Mulevala dos Olhos Azuis, porque os tinha expressivos e dessa cor. Iam ter com ele, poucos de cada vez, levavam comida, roupas e utensílios e pediam-lhe conselhos. As crianças também apareciam à beira da caverna, mas tinham pavor. Mal o avistavam, fugiam aos gritos.
As pessoas falavam com São Mulevala e São Mulevala falava com as pessoas, mas não dizia grandes coisas, ou seja, não dizia coisas proféticas, nem mencionava o nome de Deus ou sequer o de Nossa Senhora, nada disso.
São Mulevala falava de coisas vulgares, do tempo e das colheitas, da água dos rios e da relação das pessoas com a comida. Falava do capim bom para cobrir casas e dos animais perigosos que se escondem no capim. Falava do fabrico e da qualidade do carvão e dos tijolos e da aguardente de milho também, porque gostava de beber um pouco antes de adormecer. Falava do sol, da lua, das estrelas e da luz dos pirilampos.
Às vezes, falava de feitiços e de feiticeiros e da morte. Falava da importância de se distribuir bem o dinheiro, da família e do comércio. Falava das mulheres, da sua cabeça e do seu corpo. Falava do comportamento dos homens em relação às mulheres e vice-versa, mas nada dizia sobre sexo e amor, fazendo do silêncio um ato de desejo puro e duro e nu e cru.
Com extrema raridade, São Mulevala debruçava-se sobre temas que ninguém entendia. Dizia, por exemplo, que no mundo só há especialistas e ignorantes em igual proporção e nenhum deles sabe ao certo para que lado está virado ou sequer para que lado há de se virar, nem ignorantes nem especialistas, porque o sol nunca bate corretamente nesse lado, dizia ele, pois trata-se sempre do lado amaldiçoado.
As pessoas franziam a testa e coçavam a cabeça com estas histórias. Eu também, graças a Deus. E tenho muitas para contar. Hão de ver.