Fuga

A quem, desse lado, me honra quinzenalmente com a sua leitura, não parecerá estranho que, hoje, incentivado por um pedido de um amigo, me debruce sobre um tema que perpassa o que por aqui tenho vindo a publicar nestes últimos dois anos: a identidade nortenha. Baluarte de uma realidade esquiva, reino sumiço de uma ilha por cumprir, o setentrião não é presa fácil. Golpeia-me, quase de imediato, o aguilhão da tripla insularidade – o Norte como espaço forjado a três tempos.


Acto I – A distância
A primeira mortalha – que irmana todos os ilhéus – é a da distância. Longe das imensidões dos continentes e do desamparo de um horizonte irregular. Livres para quebrar os limites do alcance na extravagância de um olhar sem fundo. O ilhéu encontra na babugem peanha e dimensão – e a distância, essa, faz-lhe levantar o semblante à altura do que fica para além. (Houve quem deste rochedo nunca saísse, e nem por isso deixasse de sonhar e ser grande.) A ilha tem, na sua exiguidade, o carácter da semente: destinada a encerrar a promessa do maior. Sabemo-nos capazes do salto que só obriga quem se vê circunscrito.


Acto II – A Aspereza
Um segundo tempo – nascido da oposição geográfica de duas extensões do mesmo aperto – o da aspereza. Quis a serra, em sua presença rugosa e suas faltas abruptas, dar rígida desbasta à aresta de uma humanidade obstinada. Na latitude segunda, medida periférica de um mundo novo, houve o vazio indispensável para dobrar a presunção à perseverança – dimensão certa e real, despida dos atavios necessários ao equívoco de climas mais amenos e solos menos inclementes. A elevação da escarpa deu proporção ao próximo, emancipou o agir, criou uma vontade predisposta ao atrevimento da iniciativa, ao arrojo. Refém de duas centralidades remotas, a terra moldou-se à simplicidade dos seus frutos. A Norte o desafio mora na beira do abismo (e surge aqui uma segunda distância, aquela que intervala dois costados de uma mesma presença, na diferenciada proporção de um desamparo).


Acto III – A Ilusão
Por fim, o terceiro (e mais importante) determinador – o da ilusão. A esperança de um outro sopro na esquadria dos contos e dos mitos. El-rei Dom Sebastião, cativo da neblina esquiva de um oceano infiel; no adiamento daquela espada de justiça, lá, no topo da Penha d’Águia. O negro queimado de lutos antigos. As rezas e as bênçãos em rima inconclusa. Partidas sem retorno. Os sussurros crepitantes de lareiras mortas. A nitidez impiedosa do canto da coruja, no silêncio de uma hora escusa. Caminhos engolidos pela multiplicação das ausências. O olhar confiante de um pai, à borda de uma mesa vazia. Vidas soluçadas em cada anseio por cumprir. Promessas repetidas, esperas vãs. A ilusão vive de demoras, e o Norte de ilusão, de um nada. (O nada não tem verbo, não tem agir. É substância impotente. É espera.)
Nesta guarita basáltica – só e bastante –, entre o algar e a terra chã, os bastidos incompletos de um lar sem gente. Seixos dispersos no arrodilhamento de um punhado de gerações (já rezadas e enterradas), cedidas à pena de quem passa e não fica.
Ainda assim, obrigado à periferia do persistente engano, o Norte não busca redentor – há salvação que chegue no rumor das marés e na brisa da tarde.