Apontar ao coração e não falhar

Agora há este silêncio. Este indizível vazio para o qual ainda não encontrei forma nem chão. Este buraco a meio do corpo, por onde os dias se fazem sem que a luz se detenha numa eficaz ou mesmo aparente alegria.

Agora há este desacerto de não saber ao certo o caminho ou que caminho. Mesmo que os meus pés continuem uma espécie de percurso ou de quotidiano.

Regresso a um verão passado, a uma tarde junto ao mar, à mensagem nas máquinas infernais desta contemporaneidade que nos torna ilusoriamente mais próximos.

Seriam precisas muitas palavras até que a proximidade efetiva se concretizasse. E, se calhar, não foram assim tantas, porque algo de muito forte nos impelia para a presença. Ainda hoje não sei que mecanismo simultâneo foi acionado em nós. Talvez aquela carência ancestral e a procura sempre inaugural de alguém que nos devolva a carne e o espírito antigo do que somos.

E, na verdade, o que somos é sempre uma espécie de regresso a nós. Dois miúdos a brincar com a alegria de uma descoberta. Dois miúdos abandonados que, de repente, descobriram que afinal podiam regressar a casa, ser casa, ser a simplicidade certa de um encontro e de uma sintonia.

O mundo às vezes ajusta-se. Basta haver mar e alguém do outro lado com uma barca sonhada para chegar no meio da tempestade.

Era assim que descrevias o sonho tido numa noite de tempestade. E a barca era conduzida por um cão. Os cães, dizem, sabem sempre o caminho de volta a casa. Há muitas notícias que falam disso: de cães que percorrem quilómetros para regressar a casa.

Talvez a minha sabedoria de cão soubesse em que casa me esperavam. Talvez o meu faro apurado de cão soubesse desde sempre o lugar. Talvez o meu intenso coração de cão soubesse da urgência.

E foi tão urgente e tão certo. Tão urgente e tão feliz. Tão urgente e tão trágico.

A tragédia que se anunciou não falhou nos planos. Impôs-se veloz e certeira, apontou ao coração e não falhou por um segundo, por nenhum centímetro. Os relógios e as miras estavam certos e focados. Sem margem para o erro. Afinal, nestas coisas da tragédia, é sempre mais difícil acertar do que falhar. É essa a profunda natureza das tragédias.

E olha que é preciso muita pontaria para apontar a dois corações em simultâneo e depois não falhar, não ter um momento de hesitação. Não houve uma mão que falhasse, que tremesse, que tivesse uma espécie de medo, ou, vá lá, uma espécie de compaixão.

Foi uma tragédia certeira que nos matou. E fê-lo quase em silêncio, sem alarido, sem turbulência.

As minhas mãos em volta da tua cabeça, uma última respiração e depois apenas o silêncio e a ausência. De nada valeu o grito, a pergunta, depois apenas um fio de voz. Não havia sintonia, nem frequência para o lugar depois de nós. Não havia já a barca, nem o cão sábio, e a tempestade era apenas por dentro. Por fora, somente aquele abandono profundo. O teu abandono para lugar desconhecido, o meu abandono para o frio súbito deste verão.

As máquinas infernais estão em silêncio, sem palavras, sem destino. Até mesmo as máquinas sabem da eficácia de apontar ao coração e não falhar.