Entre vivos

A maior parte das horas do dia eram passadas na velha poltrona da sala. Que na verdade era uma nova, adaptada a gente velha e que tinha vindo substituir a anterior onde se enterrava até se tornar impossível levantar-se sem ajuda. A manta debotada do tempo dava uma certa ideia de continuidade de um tempo e de um lugar que já não eram seus. Às vezes vinha ao terraço, espreitar o cão que já lá não estava. Há anos que também se tinha ido e a casa era agora um vazio de bichos e gente, num amontoado de memórias, entre paredes que também já foram jovens.

Restam alguns vasos de flores teimosas, como ele, a dizer que ainda se vai vivendo por ali e só Deus sabe. Puxa um cigarro dos que já não fuma e pensa quantos porcos matou ali. E lembra-se daquele dia em que fintou a morte. Era na verdade noite cerrada, depois de uma festa de casamento bem regada, quando achou que o muro era o melhor sofá para descansar o corpo e acabou uns metros abaixo, com a cabeça aberta e a mulher a gritar-lhe pelo nome.  Acordou no hospital com mais uma história para contar.

Aprendeu a escutar o silêncio e emprestou-lhe vozes que ouvia na cabeça, não sabia bem se em sonhos, se de verdade. O passado aparecia assim num ralhete da mulher, que agora recebia a rir. Senta-te aqui ao meu lado. Era a primeira vez que a tratava por tu. Ela não estranhava e brigava que tinha tanto que fazer, ia lá se sentar a meio do dia. E ele ria embasbacado a olhar para ela, altiva, mandona como sempre fora, até a gargalhada dela se ouvir também e encher as divisões vazias. E os pequenos, a Maria chegou bem ao pé de ti, perguntava. E acordava, sem resposta, de rompante com a voz do Fernando Mendes na televisão.  São 120 euros e ele a converter ainda em contos. Nunca se adaptou à moeda nova e tantas vezes ouviu da mulher que não se deixasse enganar no troco quando ia à venda comprar um ingrediente em falta. Os olhos baços - cada vez mais claros - em lágrimas e a casa imersa em solidão. Às vezes parece que os via, entre os raios de sol que atravessavam a penumbra. Eram tantos os mortos que tinha a viver consigo, que era um contrassenso que se sentisse tão só.