Tchuf, swish, tchuf, swish

Abri os olhos e vi uma fiada de coqueiros de cada lado da estrada. Os coqueiros corriam para trás e pareciam os de Sunset Boulevard – altos, esguios, sorridentes. Coqueiros de filme, pensei.
Naquele tempo eu andava sozinho no mundo, vagabundo, não era um filme – era África. Ia a dormir na carroçaria de um ‘canter’ carregado de gente, a caminho da praia de Zalala, por uma estrada ininterruptamente esburacada.
Sou o único branco a bordo e os outros passageiros olham para mim com extrema curiosidade. O Índico está próximo, sinto, mas para já só vejo campos de arroz orlados de coqueiros. Muitas árvores estão doentes, com um mal que as destrói de cima para baixo. Ficam amarelas e morrem. Primeiro as folhas, depois o tronco, por fim as raízes.
Em poucos anos não haverá coqueiros aqui, penso de relance e entristeço, consciente de que estou a percorrer um dos maiores palmares do mundo.
Quando a viagem chega ao término, continuo sem ver o mar.
– Onde fica a praia? – pergunto ao motorista.
– Para baixo – diz ele.
Sigo por uma vereda. Atrás de mim, sem que me aperceba, vêm dois miúdos. Atravesso uma faixa de casuarinas, respiro fundo, encontro o mar – o Índico – a praia. A praia é enorme, a perder de vista para um lado e para o outro, quase virgem. Ao fundo, do lado esquerdo, avisto alguns barquinhos e pescadores que puxam redes para terra. Olho para o céu. O sol brilha com toda a força tropical.
É chegada a hora de dar um mergulho.
Pouso a mochila e começo a tirar a roupa até ficar em boxers. De repente, passa-me pela cabeça despir-me todo e entrar na água nu. Este pensamento faz-me olhar em redor e é então que vejo os dois miúdos a pouca distância. Sorriem. O mais velho aproxima-se timidamente e diz:
– Posso vigiar a roupa enquanto vai ao mar?
E eu:
– Está bem.
E ele:
– Cinquenta meticais.
E eu:
– Vinte.
Ele abana a cabeça que sim e eu penso qualquer coisa que já não me lembro, mas que ficou no cruzamento entre “Esteiros” e “Capitães da Areia”, um pensamento literário, abissal, capital.
Avanço para o mar e a cada passo que dou sinto o que já não sou, os mortos da minha família, as pessoas que em mim eram os pilares da sabedoria e da generosidade. Morreram todos e eu fiquei órfão. Longe. Os outros, os vivos, são o espelho profundo da minha solidão. E o resto é silêncio, casas velhas, mato, ratos e ruínas, a ribeira lá em baixo, os ciprestes no cemitério, um sonho, nada.
Uma coisa é certa: na praia de Zalala é preciso caminhar muito pela água adentro até que seja possível afundar-se. Já mal enxergo os miúdos que ficaram no areal a vigiar a roupa e a água ainda só me dá pela cintura. Avanço um pouco mais.
Visto à distância, talvez pelos olhos de Deus, sou um peixinho brilhante e cheio de segredos perdido no infinito. Deus há de ter dó de mim e vai meter as mãos em concha na água para me salvar. Mas eu direi não, muito obrigado, não quero. É que sou mais feliz aqui. Sei que não compreendes, mas sou mais feliz aqui.
Só é pena – penso no fundo azul – que seja necessário existir para possuir a ideia da morte e do fim. E depois penso: Mas que raio de coisas passam pela cabeça de um gajo quanto está a nadar! A seguir, penso ainda: A solidão é um desafio constante à capacidade de voltar a acreditar.
E o mar responde: Tchuf, swish, tchuf, swish. Esta é a voz do Índico: Swish, tchuf, swish, tchuf.