Vou te contar...

Passei muitos anos a embirrar com a Bossa Nova e demorei outros tantos até fazer as pazes com este género musical. Sempre soube quem era João Gilberto e o tamanho da sua importância para a música brasileira, mas estava determinada a passar longe do seu violão e da sua melodia.
No Brasil dos anos 50, mais especificamente no Rio de Janeiro, a palavra ‘Bossa’ era a gíria que significava o modo de fazer alguma coisa. E ‘Bossa Nova’, uma maneira diferente e única de fazê-lo. No caso de João Gilberto, de fazer samba. 
Já no Brasil dos anos 80, estava eu em plena adolescência e a minha ‘Bossa Nova’ vinha de Inglaterra e dos Estados Unidos. Era desses países que chegavam os sons diferentes e únicos, tão intensos como os meus dramas autocentrados. Queria músicas com muito ritmo, letras profundas (achava eu), longos solos de bateria e de guitarra, arranjos eletrónicos e queria também que dessem para dançar e criar coreografias com as amigas. Implorava para me deixarem pintar o cabelo de verde e vestir-me como a Cindy Lauper, e sonhava que conseguia cantar os agudos como ela. Aqueles que eu chamava de ‘velhos’ na altura, diziam que aquilo não era música, era ‘barulho’. 
Um senhor sozinho, a cantar baixinho ao violão não espelhava o que me ia na alma, por isso eu achava João Gilberto chato, lento e melancólico demais. Aquilo era água com açúcar e do que eu gostava era de sal nas feridas, era de praticar os exageros próprios de quem está na segunda década de vida. A chata era eu, como uma fruta verde que ainda não caiu do pé... com a casca dura e a doçura ainda por desenvolver.
O facto é que precisei de amadurecer para gostar de Bossa Nova. Precisei deixar passar o tempo e acumular ‘vida’ para conseguir apreciar aquela tristeza, aqueles poemas e toda a sofisticação por trás daquela simplicidade. E precisei da Bebel Gilberto, a filha do génio, para conhecê-lo melhor e ao seu legado. Foi ela que, no início dos anos 2000, acabou com a minha implicância em relação à Bossa Nova.
Mas era a voz do pai dela que, no dia do meu casamento, ecoava pelo jardim:
“Vou te contar
Os olhos já não podem ver
Coisas que só o coração pode entender.”