E há Luanda

Há cidades às quais podemos dar nomes de acordo com as suas caraterísticas. Há cidades que amamos. Há cidades que odiamos. Há as que nos são indiferentes. Há cidades que se podem comparar a qualquer coisa. Há as incomparáveis. Há cidades. Simplesmente.
Há as Cidades Aglomerados de Pessoas. Objectos, ruas, passeios, casas, edifícios.
Há as Cidades Paisagem. Sons, cores, odores, encontros, desencontros, ódios, amores.
As Cidades Cultura. História, estórias, tradições, arte, crenças, religiões, gastronomia.
As Cidades Território. Relações, afinidades, carências, desprovimentos.
Há Paris, a cidade Luz. Vaticano, a Cidade Eterna. Detroit, a Motor City, Lisboa, a das Sete Colinas. Porto, a Invicta. Havana, a Cidade das Colunas. Las Vegas, a Cidade que Nunca Dorme.
E há Luanda.
A da Ilha do Cabo que, dizem, deu nome a Luanda, de "Axiluandas"  - homens do mar - nome supostamente dado pelos portugueses aos habitantes da ilha, porque, quando ali chegaram e lhes perguntaram o que estavam a fazer, estes teriam respondido uwanda, "trabalhar com redes de pesca”  em lingua kikongo. Ilha que já foi “Banco” de “dinheiro”. Muito. Valioso. O zimbo, a pequena concha cauri, da espécie Cypraea moneta, esse búzio que se tornou, nos séculos XVII e XVIII, de moeda forte do Reino do Congo a moeda internacional.
Luanda, a da Fortaleza altaneira que de São Miguel de Luanda já se chamou, erigida no monte de São Paulo, actualmente só o Morro da Fortaleza, a primeira fortificação a ser construída em Luanda, no século XVI.
Luanda da Avenida Marginal bordejando a Baía, lugar de fundação da cidade por Paulo Dias de Novais em 1575.
Luanda da igreja de Nossa Senhora da Nazaré, datada do século XVII, classificada em 1932 como Monumento Nacional, dedicada à vitória portuguesa na Batalha de Ambuíla sobre o exército do reino do Kongo, onde repousa a cabeça do rei António Vita Nkanga, morto e decapitado na batalha, levada para Luanda como troféu, como indicam os azulejos historiados no interior  da pequena mas respeitada igreja, aninhada na Marginal, contemplando o mar há mais de quinhentos anos.
Luanda, do Morro da Maianga cantado nos versos de Mário António, poeta angolano «Noites de luar no Morro da Maianga./Anda no ar uma canção de roda:/
"Banana podre não tem fortuna/Fru-tá-tá, fru-tá-tá..."/Moças namorando nos quintais de madeira/Velhas falando conversas antigas/Sentadas na esteira/Homens embebedando-se nas tabernas/E os emigrados das ilhas.../— Os emigrados das ilhas/Com o sal do mar nos cabelos/Os emigrados das ilhas/Que falam de bruxedos e sereias».
Luanda do mar da Kianda, a sereia das sereias. A mais poderosa, a mais amada, a mais temida, a mais venerada. Senhora das lagoas, dos rios, dos lagos. Senhora de todas as águas.
Luanda. Que já foi de São Paulo da Assunção. Que já foi Loanda. E Luuanda.
Odiada. Desprezada. Maltratada. Cantada. Admirada. Apaixonada. Amada. Amante. Mulher. Namorada e enamorada.
E há Luanda. Única.