O poema da vida

Há dias entrei numa livraria, peguei num livro e o livro dizia assim: “Basta sentirmo-nos nómadas uma vez para sabermos que voltaremos a partir, que a última viagem não será a derradeira”.
Fechei os olhos – um segundo de olhos bem fechados – e vi surgir uma estrada de terra batida em África, tão nítida como o livro na minha mão. Como se isso não bastasse, eu estou lá. Calço sandálias esfarrapadas, calções feitos de calças rotas, camisola de manga cava. O cabelo amarrado em rabo de cavalo, a cair até ao meio das costas. A barba hirsuta. Óculos redondos. Sou eu. Nada mais.
Falta uma hora para o pôr-do-sol e sinto-me feliz por isso. Não há pôr-do-sol como no interior do continente negro, não há mesmo, pelo que é uma bênção estar ali na Alta Zambézia, rodeado de montanhas e plantações de chá, de nascentes, trilhos e picadas, de ar puro e espaço infinito para ser e sentir.
Vou sozinho pela estrada fora depois de mais um dia de aulas. Sou professor de Português numa missão católica. Os alunos gostam muito de mim e isso enche-me de ânimo e confiança. Estou até bastante surpreendido com o dom que tenho para ensinar e sinto-me orgulhoso por ser voluntário, por não ganhar um tostão com o meu trabalho na escola. O ouro são eles, os meus alunos. Por isso, guardo-os a todos no coração, da miséria em que os encontrei ao sucesso que insistentemente lhes desejei para a vida, a toda a hora, para sempre.
– Nunca desistam do sonho! – dizia eu a plenos pulmões. – Custe o que custar, nunca desistam do sonho!
Caminho em direção ao centro da cidade. A tarde está quente e húmida, violentamente quente e húmida. Vou beber uma cerveja na esplanada do Motel Monte Verde – uma Manica de meio litro bem gelada – e dali vou assistir ao florescer da noite sobre o mundo. É um momento de paz e eu estou longe de tudo, não tenho vontade de regressar a lugar nenhum, quero até partir para mais longe, ir para sempre, nunca mais voltar, meu Deus, sinto já o sabor amargo da cevada a escorrer na garganta e o esplendor do céu vermelho diante dos olhos também.
A estrada é muito movimentada e cheia de vida durante o dia – um batimento do coração – mas à noite torna-se demasiado escura e sombria, deserta, vazia, extremamente perigosa para quem anda sozinho – outro batimento do coração. Por isso, gosto tanto de a percorrer.
Tum-tum, tum-tum.
Um jipe surge ao fundo a grande velocidade, levantando à passagem uma nuvem de poeira tão densa e espessa que apaga tudo ao redor. Fecho os olhos para evitar o pó, suspendo a respiração. Um segundo apenas. Agora estou aqui, aqui mesmo. Tenho o livro na mão e o livro diz assim:
“Mais tarde, muito mais tarde, cada qual se descobre nómada ou sedentário, amador de fluxo, de transportes, de deslocações, ou apaixonado pelo estatismo, imobilidade e raízes. Os primeiros gostam da estrada, longa e interminável, sinuosa e ziguezagueante, os segundos adoram o solo, sombrio e profundo, húmido e misterioso.”
Eu sou os dois, não tenho dúvidas.
Agora, porém, quero ficar. O meu coração bate aqui. Por ti, meu amor, por ti. Tu és o caminho, o lugar de partir e chegar, a casa, tu és a distância mais longa que eu quero percorrer, o mundo inteiro, o poema da vida. Fico.