Vejam só como isto acaba

Gosto muito deste arranque, ora vejam: As pessoas que me conhecem sabem que sou egoísta, triste e rude. É verdade. Sou tudo isso e muito mais. Sou livre e vim para aqui a voar. Às vezes sonho que ainda tenho as asas e tudo o que digo é factual, exato, objetivo. Outras vezes, porém, o que sinto são dores nas costas, dores fortes no lugar onde antes brotavam as asas, e toda a minha conversa passa a ser fábula, tesouro, magia.

Tem alturas em que acordo no meio da noite e não sei quem sou nem onde estou, o meu nome não soa assim, a minha terra não é esta e o oceano da minha existência também não é o Atlântico, não sei de onde venho, não é das zonas altas de Santo António, do Laranjal, da Rampa, do Jamboto, não é não senhor, nem sei para onde vou, lá para os confins do mundo talvez, para o fundo da galáxia, não sei mesmo para onde vou, e isto dura meia dúzia de segundos, este não saber nada, e depois falta-me o ar como se estivesse a ler o parágrafo em voz alta sem parar, falta-me o ar o mar o voar o ar.

A Pat olha para mim e revira os olhos:

– Duarte Caires, eu já te conheço…

E é assim, com esta indiferença inteligente e cheia de ternura, tão simples e profunda, que ela me desarma as crises existenciais e transforma as quedas no abismo em voos ridículos e inócuos de pássaro gordo com asas fanadas do poleiro para o chão, porque de facto eu estou longe das tempestades, estou em porto seguro e sei que só tenho uma vida para viver, por mais que perca tempo a pensar nas outras mil, nas do passado e nas do futuro também, nas paralelas a todos os tempos, nas boas e grandiosas, nas pobres e desgraçadas, nas más e nas remediadas, seja lá como for só tenho uma vida para viver – esta.

E depois a Pat lembra-me que tenho de escrever:

– Escreve! Escreve!

Porque eu ando sempre a dizer – ou a fazer crer – que só a escrita me pode salvar, é nela que residem os meus deuses, a explicação do ser e o sentido do universo e por isso tenho dúvidas, por isso vacilo e falta-me a fé, por isso peco e blasfemo, por isso caio de joelhos e peço perdão, rogo a palavra salvação e quando dou por mim estou outra vez no vazio e o livro nunca mais sai, o estupor do livro nunca mais sai.

Sobram as crónicas.

Esta é a ducentésima – duzentas semanas sem falhar uma.

Todas as quintas-feiras a minha vida aqui em carne viva e fresca, paginada a duas, três ou quatro colunas, o meu coração aberto, dissecado, a minha alma entre os vivos antes da morte, a foto ao lado, sou eu, sou eu, o mundo de onde venho, a minha gente, as viagens, África, tudo o que ficou por dizer, a verdade e a ficção, o sonho, o aqui, o agora, o meu amor sempre, assim estendida ao meu lado no começo do verão, linda e suave, dois dias depois do solstício na praia da Ponta do Sol, assim a caminhar com dificuldade em direção ao mar, a queixar-se da dureza roliça das pedras.

– Bem – diz ela resignada – se é para continuar nesta vida de calhau, vou comprar uns sapatos apropriados e um colchão para apanhar sol à vontade.

E eu a correr descalço tão feliz a mergulhar, o mar, amar, a dizer:

– Vem!

Ah, já agora, ela disse que sim.