A fazer de conta

Há coisas que é melhor tratarmos sozinhos. E ao contrário do que possa parecer, não estou a falar de atividades prazerosas. Muito pelo contrário.

Conhecem alguém ou já ouviram falar de pessoas que passaram por situações difíceis em segredo, mantendo sempre uma ‘boa cara’ para os que estavam à sua volta? Eu não só conheço, como já ouvi muitos elogios rasgados de admiração por esse comportamento. O que me deixa contente, porque eu própria sou uma dessas pessoas.

Não sei com quem aprendi ou quem me terá inspirado, mas desde muito cedo que sou assim. No 8º ano, lembro-me de ter feito uma cábula para o teste de geografia (no meu caso, um pesadelo bem maior do que a matemática), que foi descoberta e confiscada discretamente pelo professor. As minhas notas já não eram grande coisa e se tivesse um zero iam descer a pique. Na minha cabeça a situação era verdadeiramente dramática mas não tinha vontade nenhuma de partilhá-la com ninguém. Nem com os meus pais, nem com as minhas amigas, nem com o padre Silvestre, nem sequer com a nossa conselheira e confidente, a irmã Maria José.

Agi por instinto e mantive secreta a minha angústia de não saber que castigo teria. Foram horas e horas deitada na cama, olhando para o teto e imaginando as mais terríveis repercussões na escola e em casa.

Quando, alguns dias depois, fui chamada ao gabinete do meu carrasco, digo, do meu professor, bastou-me aguentar em silêncio a longa reprimenda e no fim fui absolvida por não ter antecedentes.

Um final feliz, que também não senti necessidade de partilhar com ninguém.

Passei por várias outras situações desde então, desde coisas pequenas a perdas irreversíveis, que preferi igualmente manter só comigo ou, quando muito, com o grupo mínimo dos que inevitavelmente tiveram conhecimento.

Talvez esteja apenas a tentar fazer de conta que os meus problemas e preocupações não existem por uns momentos. A tentar não lhes dar importância, a tentar que não contaminem a realidade à minha volta. Não é defeito, é feitio.

Mas não é isso que aprendemos desde novos? A fazer de conta que não aconteceu, a fazer de conta que já não dói? Logo na primeira vez que esfolamos os joelhos, ouvimos os crescidos assegurem-nos, em meio a sangue, baba e ranho, que “Já passou, já passou.” Se pudéssemos, responderíamos nessas alturas que “Não passou nada, crescidos! Ainda lateja, ainda arde, ainda dói. Mas ok, vamos fazer de conta”.