O quarto tempo do amor

Mal a vi soube logo que a minha vida ia mudar e este foi o primeiro tempo do amor – um tempo que permanece intacto. Era domingo num mês de fevereiro e o nosso encontro estava marcado para as onze horas na Praia Formosa. Ainda não nos conhecíamos pessoalmente – eu e a Pat – mas já trocávamos correspondência há algum tempo e foi assim que nos apaixonámos, através da escrita. No entanto, éramos muito formais nas cartas e tratávamo-nos por ‘você’.

Eu cheguei às dez e meia. Andei por lá muito ansioso com o cabelo ao vento – meu cabelo tão comprido naquela altura – e as mãos enfiadas nos bolsos por causa do frio e da humidade.

De vez em quando olhava para o céu, olhava até mais para o céu do que para o mar, porque as nuvens diziam que ia chover e eu calçava um par de botas com solas rotas de muito caminho e pouco dinheiro, botas de vagabundo, pelo que se tivesse de andar à chuva ficaria com os pés encharcados num instante, coisa que aconteceu mais tarde, tendo apanhado depois uma grande constipação, difícil de curar, mas valeu a pena, ai valeu mesmo a pena.

A certa altura eu estava encostado numa estrutura de madeira sobre o calhau e vejo-a surgir à minha frente, já muito perto de mim. Trazia o cabelo loiro e comprido solto, calças de ganga justas, camisa também de ganga muito elegante, um corta-vento por cima, verde escuro, a cor do dia, sapatilhas brancas, o rosto claro e suave, traço fino cheio de luz, tanto brilho no olhar, muito intenso, muito profundo.

E eu parado, pasmado, pensei:

– É ela!

Fomos passear na promenade em direção a Câmara de Lobos, a falar tantas coisas pelo caminho, a vida inteira na voz um do outro e o mundo também, tudo novo, tudo viagem e descoberta, uma esperança sem fim a cada sorriso, a partilha absoluta do momento em nosso olhar.

E assim, falando disto e daquilo, chegámos ao passadiço sobre a Ribeira dos Socorridos, ia ela a dizer que tinha sofrido uma lesão muscular durante um dos seus treinos e fez uma ligeira paragem, estendeu a perna direita, a mão esquerda percorreu ao de leve a parte interior da coxa, um movimento inusitadamente tão sensual, e disse:

– Foi este músculo.

Eu olhei de soslaio e desejei-a para sempre.

Este foi o segundo tempo do amor e o seu arrebatamento perdura inalterado.

O terceiro aconteceu também nesse dia, mas mais tarde e noutro local, quando eu já andava com os pés molhados, consciente de que haveria de ficar doente.

Uma chuva torrencial abatera-se sobre a ilha e tudo adquiriu o aspeto mágico dos sonhos: a vida com o seu passado inexplicável e o seu futuro imprevisível, o pensamento com a sua objetividade cortante e os seus inevitáveis pontos de fuga, a alma com os seus tormentos de vazio e nada e a morte ao longe tão concreta e definida, o labirinto e o infinito, a solidão, a luz, o silêncio e a mão fechada, a mão estendida também, nós no singular, nós no plural, eu, tu.

Ela disse:

– Vamos dar uma volta.

Quando chegámos à praia do Garajau já estava quase de noite, mas era ainda antes de tudo. A chuva tinha cessado, voltaria em breve. Ela pegou no guarda-chuva por precaução, para irmos do carro ao bar, e o modo como o fez, tão macio e desapegado, continha a marca dos amores eternos e isso encantou-me por completo, desfez-me em absoluto. Então, pensei outra vez:

– É ela!

Este foi o terceiro tempo do amor.

E agora o quarto. Muito tempo depois. Hoje:

– Casas-te comigo, Pat?