A dança

[“Todos somos resíduos imperfeitos

e os organizadores do Baile saíram logo no início,

deixando a Música, mas não os passos.

Por isso tropeçamos”, Gonçalo M. Tavares]

​O difícil é encontrar a própria voz, não é? As palavras. Fazer dos trilhos caminho, ou rasgar caminho entre eles. Deixar-se perder no emaranhado de árvores que fazem a floresta. Uma linha recta de curvas e contracurvas. Mergulhar no mar, só para respirar o sal profundo. Deixar-se ficar aí, imóvel. Com a água fria em volta, e o pensamento reduzido aos ecos distantes da superfície.

O difícil é acertar o passo, e não ter medo de desacertá-lo se para aí nos der. É preciso matar o medo. Guardá-lo numa pequena caixa de metal vazia, e trazê-la sempre na algibeira. Pode dar jeito, um dia. Fomos tanta coisa. Somos tanta coisa. Sonhamos outras mil. Vamos ser algumas mais, com certeza.

Vestimos máscaras que se colam à pele, até se tornarem a própria pele. Até não sabermos mais o que existe debaixo delas. Até estarmos demasiado exaustos para arrancá-las. Todas as manhãs, apertamos a gravata e saímos, mas o que queríamos mesmo era aquela camisola deslavada e o vento a bater-nos na cara. Compramos carros, mas sonhamos com bicicletas. E continuamos.

O segredo é não haver segredos. Está tudo ali, às claras. Escancarado. Dançar e aproveitar a música. Um dia a orquestra cala-se. Esmorece. Ficamos ali, parados no meio da pista. Braços tombados, sapatos gastos, e uma incomensurável vontade de dançar. Só mais uma música. Só mais um passo.

[“Do que temos medo é da solidão, temos de o reconhecer,

esse caixão que vem antes do tempo,

e nos fecha dos outros e do dia.”, Gonçalo M. Tavares]

​Tu, que adormeces no sobressalto de quem procura conhecer os dias inteiros. Que espantas os olhos para a noite, feita escuridão. Que dizes que não dormes, porque sim, ou porque não. Também vais aprender os passos da dança. Rasgar a pauta, inventar ritmos e compassos. Carregar todas as perguntas que te atrasam o sono. Que roubaram o sono de tantos outros antes de ti, e que vão continuar a povoar muitos dos que vierem a seguir.

A verdade, filho, é que eu não tenho as respostas. Ninguém tem. Vivemos com as perguntas, e é tudo. Se não nos pesarem muito, vamos convivendo com elas. Dançando ao som da Música. Porque tudo isto é uma festa translúcida. – Porque haveria de ser outra coisa? – Porque tudo isto pode estar condessando num copo largo de bom vinho, cheio até cima da beleza das ínfimas coisas. As respostas, se existirem, estão aí. Numa gargalhada espantada à volta de uma mesa. Num abraço apertado de uma despedida breve. Num beijo terno de boa noite. Num olhar cúmplice, mesmo que fugidio. Num final de tarde, em silêncio.

[“Porque o mundo se organizou todo de uma vez e depois calou-se.

Ficámos nós, sós, e a Filosofia.”, Gonçalo M. Tavares]

​É uma boa companhia. Vais ver. É preciso saber ouvi-la. Saber calá-la, também. Vais saber o momento. Eu sei.