A morte de um cão no Laranjal

E ali estavas tu antes de qualquer coisa, o ser exposto em segredo, o íntimo em carne viva, inesperadamente tu, a nudez e a máscara também. Estavas diante de mim e eras parte de tudo o que compõe o mundo, eras o mundo inteiro e muito mais, o tempo, a memória, a eternidade. Eu estava fascinado por seres tão enorme, por nunca acabares em nada, por perdurares em tudo, mas de repente percebi que o sonho ia transformar-se em pesadelo e acordei.

Passei o fim de semana fora de casa e quando voltei às zonas altas o meu pai disse-me assim:

– O Tonecas morreu no sábado.

– Ah sim? – suspirei.

– Morreu por volta das sete da tarde, mas eu só o enterrei no domingo de manhã.

O pai estava triste, mas também aliviado, gostava muito daquele cão, andavam juntos há dezassete anos, para cá e para lá, por todo o lado, ele e o Tonecas atrás dele, mas o bicho agora andava muito doente, passou os últimos meses bastante mal, não tinha qualidade de vida e tantas vezes atormentava-nos durante a noite com berros desesperados. A morte foi uma bênção, assim como acordar é sempre a salvação dos sonhos.

E neste eu estava preso num quadro de parede com moldura dourada. Dali contemplava a existência, mas não conseguia mexer-me, estava fixo, imóvel. Atrás de mim estendia-se uma planície em tons verde-escuro e ao fundo um traço azul era o céu distante e por diante havia uma festa em minha honra. Na sala encontravam-se todas as pessoas que conheci até hoje, mesmo aquelas que esqueci e as que já não reconheço e as com quem não falo mais.

A certa altura, reuniram-se em meu redor – gente de quem gosto imenso ao lado de gente que detesto – e pediram-me que falasse, insistiram muito nisso, e eu a ver tudo lá do quadro, absurdamente estático, sem poder fazer nada senão assistir ao espetáculo de mim mesmo.

– Dis-cur-so, dis-cur-so, dis-cur-so – diziam em uníssono, enquanto batiam palmas.

Subi para um palanque e comecei a falar. Ao princípio estava entusiasmado, pleno de paixão e fulgor, mas depressa o timbre afrouxou e sobrevieram palavras tristes, lentas, pesadas. A sala afundou-se em silêncio, todos carregaram os semblantes, baixaram os olhos. Eu dizia coisas para nunca mais, dizia coisas assim:

– Tudo o que tenho está aqui agora: o corpo e a alma. Do passado uma lembrança incerta e do futuro uma certeza vazia. Sou apenas vida, meus amigos. Sou apenas vida. Não me ralo com os que têm menos, nem com os que têm mais. Às vezes entristeço-me por nada esperar e a minha única alegria, toda ela cheia de ironia, é saber que para já dou um belo cadáver.

Não sei quanto tempo durou o discurso, mas no fim ninguém aplaudiu. À saída, porém, as pessoas vieram cumprimentar-me e logo uma das primeiras – por mais esforço que faça não sei quem foi – disse-me assim:

– Tens de publicar o texto. É magnífico.

– Não tenho onde o publicar – respondi.

E então percebi que a festa era de despedida da minha escrita, eu ia deixar de escrever, nunca mais veria um texto meu grafado em letra de imprensa, eu ia calar-me para sempre, a palavra escrita ia deixar de existir em mim, a palavra ia morrer e a festa era por isso.

Tive medo. Acanhei-me. Esqueci-me da elementar capacidade de iniciativa e meti-me por caminhos secundários, tantas vezes demasiado estreitos, ninguém me vê, ninguém sabe de mim. Volta e meia fico prestes a culpar os outros por isso, amargo, confesso mesmo que já maldisse duas ou três pessoas, mas volto sempre rápido à consciência de que são os meus próprios passos que me conduzem ao deserto, nunca os passos dos outros.

Estou a cumprir o destino perante as pessoas que amo e as que odeio também e estas foram as últimas a abandonar a sala da festa. Foram-se embora felizes com minha desgraça, mas nenhuma me olhou com desdém. A felicidade era de facto pura.

Acordei no exato momento em que o sonho ia transformar-se em pesadelo. Sim, acordei e acordar foi tão bom como a morte de um cão velho e doente que viveu sempre estimado lá em cima nas zonas altas de Santo António e morreu no sábado.

– Graças a Deus! – disse o meu pai. – Já não aguentava ver o bichinho sofrer tanto!