É assim mesmo!

O meu pai cortou-me a respiração. Disse-me assim: Estou a viver o piorio da vida! Eu olhei para ele com o coração desfeito e pensei: É verdade, pai, este é o pior tempo da tua vida. Mas não disse nada. Não disse nada. Fiz cara de duro e fiquei calado, fiquei quieto e sem palavras, encostado na parede exterior da loja. Contemplei o vazio e o vazio era o mundo de sempre: a casa, o poio, a curva da estrada, a fazenda do avô agora transformada em hortas urbanas, a ribeira, o Pico dos Barcelos ao fundo.

– Já não existe nada aqui.

O pai expeliu um suspiro bruto e pesado como as pedras e os blocos e os chaprões e todos os materiais de construção civil com que sempre lidou desde a infância, mestre Gabriel, o pedreiro, homem rude que desceu do Curral Velho, quase analfabeto mas airoso e possante, casou-se com uma das netas do Meia – o velho Meia que viveu cem anos e toda a gente respeitava – construiu a casa num recanto onde o sol só chega depois das dez da manhã, depois teve dois filhos – Duarte Caires e Marta Caires – e agora suspira a dor da velhice e da solidão.

– Puta que pariu esta dor no dente! – disse ele. – Já gastei um rio de dinheiro com esta boca!

Eu permaneci em silêncio. Olhei para o cão grande em cima do terraço – está velho, mal se arrasta, pobre bicho, triste vida – e depois prestei atenção ao outro cão ali mesmo ao lado, o pequenino, uma bola de pelo minúscula, também velho e doente, já não dá conta de si, cego e rameloso, mas ainda a farejar no ar o sentido perdido da existência, coitado. E a seguir reparei na cadela estendida num degrau, dos três a única saudável, mas demasiado gorda, porque o pai está sempre a dar-lhe comida, está sempre a falar com ela acerca de comida, sempre a dizer:

– Tu queres comer, mas não te dou.

É mentira. De facto, ele não para de lhe atirar comida e o bicho obviamente não para de comer. Come, come, come.

– Esta cadela vai rebentar – disse eu em tom de alerta.

– Deve é estar doente como os outros – retorquiu ele, a desvalorizar.

E eu fiquei em carne viva, a pulsar, a sentir no sangue e na alma toda a desarmonia que sempre existiu entre nós e a distância infinita que separa os nossos pontos de vista e o abismo profundo que afasta as nossas solidões – ele expõe o lado duro da sua sensibilidade, eu mostro o lado sensível da minha dureza.

– Já não ando a fazer nada neste mundo! – disse ele.

Eu olhei em redor – o coração desfeito, o coração desfeito – e vi tudo o que morreu há muito tempo: a minha mãe, a luz, a alegria maravilhosa das coisas por vir, a floresta mágica, todos os sonhos e as tristezas também, as cores do dia, as estações, as vozes que diziam meu querido filho, meu querido neto, meu querido sobrinho, os amigos da aurora do tempo, o lugar onde comecei a crescer até ser o que sou hoje, o lugar de onde parti para conhecer o mundo e o amor, o lugar onde ficou para sempre gravada e oculta a felicidade de estar vivo.

Saí de casa angustiado. Telefonei à minha irmã. Pedi-lhe que fosse lá acima falar com o pai. Ele precisa de sentir o teu lado feminino, disse eu. Urgentemente. Depois, à noite, quando voltei, encontrei-o a ver televisão, a rezondar os políticos de todos os partidos e todos comentadores de desporto também, como sempre, raios partam, bem-disposto, a dizer que já não lhe doía o dente, a dizer que tudo se vai resolver, a dizer que a vida de um velho é assim mesmo, é uma vida de dor e solidão.

– E olha que eu só me queixo mesmo no limite!