O meu gato não vota

Tenho de confessar que foi com um passo lento e arrastado que, no domingo, entrei na minha secção de voto. Não porque preferisse a praia, a esplanada ou a Feira do Livro de Lisboa, mas porque queria ter votado de forma mais convicta... já são muitos anos a escolher a ‘menos mal’ das opções. Durante a campanha eleitoral, procurei informar-me nos meios de comunicação e nos sites dos partidos e tive dificuldade em encontrar quem assumisse objetivamente e concretamente como iria defender os interesses de Portugal na Europa. É esse o propósito de quem vai mudar as trouxas para Bruxelas, ou estou enganada?

Ainda assim, cumpri o meu dever. E a mim, basta-me saber o que fiz. Não postei uma foto fazendo um V ou um Like com os dedinhos, não tirei selfie com o boletim de voto, com ou sem a cruzinha, e não chateei quem preferiu a praia, a esplanada ou a Feira do Livro de Lisboa. Reflexos de estar pouco convicta. Ah... consegui resistir às farturas, apesar da roulotte do Matos também ter cumprido o seu dever.

Já em casa, fiquei contente mas não surpresa com a vitória do PAN, grande vencedor da noite. Fiquei contente porque todos os dias surge uma nova ameaça ao meio ambiente, de dimensão global ou local, e é urgente debatê-las e mais urgente ainda uma ação coordenada de vários países. Fiquei contente por termos um eurodeputado a engrossar a família dos Verdes no Parlamento Europeu e espero sinceramente que faça um bom trabalho pela nossa agricultura, pesca e exploração de recursos naturais. E cobrarei se não o fizer.

Há quem não considere o PAN um partido político no verdadeiro sentido da palavra, aproximando-se mais de um movimento que tem uma causa clara mas não uma ideologia política. Tenho que concordar.

Também há quem diga que não é um partido ambientalista, mas sim animalista. A julgar por algumas declarações, talvez os seus próprios membros se tenham esquecido de que o P da sigla não é de ‘Partido’ mas sim de ‘Pessoas’. E eu gosto de acreditar que as pessoas vêm sempre primeiro do que os Animais e do que a Natureza. Só quando as condições mínimas de dignidade e direitos humanos estão asseguradas aos primeiros é que passamos aos segundos. Só porque tenho a barriguinha cheia, um teto em cima da cabeça, acesso a cuidados médicos, educação, trabalho, democracia e liberdade de expressão é que posso preocupar-me com a reciclagem e dar uma vida mansa ao meu gato.

É verdade que o felino que mora comigo há 16 anos comporta-se como uma ‘diva’ por minha culpa. Sou eu que permito que faça focinho feio a certas rações e que tenha, tal como o Sheldon de ‘Big Bang Theory’, o seu ‘spot’ reservado no sofá da sala. Mas nunca me esqueço que sou o único ser racional nessa relação.

Não, o meu gato não vota. E se votasse, dado o seu apreço por fiambre, duvido que escolhesse o PAN.