Teodósio: o Cardeal Esquecido

Não tem o seu nome em praça, ou rua, na capital da sua ilha. Tão pouco estátua, placa, nem mesmo retrato nos corredores do poder onde se enfileiram estaturas. As únicas referências públicas permanentes circunscrevem-se à sua freguesia natal, aquela terra que carinhosamente chamava de sua “Pátria pequena”. Teodósio Clemente de Gouveia, o príncipe da Igreja, o cardeal madeirense, nasce a 13 de Maio de 1889, às 8h00, no sítio de São Pedro, junto à capela com o mesmo nome em São Jorge. Frequentou a escola pública local e entrou para o Seminário Claretiano do Funchal a 4 de Outubro de 1905. Em 1910, tendo sido o seminário confiscado pelos revolucionários republicanos, D. Teodósio foi levado para Paris, onde prosseguiu os estudos até à invasão alemã de 1914 (tendo-se refugiado, então, na comuna francesa de Dax). Em 1916 dirigiu-se a Roma, onde frequentou a Universidade Pontifícia Gregoriana, doutorando-se em Teologia e Direito Canónico. Foi ordenado sacerdote a 19 de Abril de 1919. De 1920 a 1921 cursou na Escola de Estudos Sociais de Bérgamo, tendo também sido admitido na Universidade de Lovaina.

Quando regressa à Madeira em 1922, torna-se alvo da estreiteza provinciana de um meio eclesiástico minado pelo carreirismo e pela inveja. O seu brilhantismo acossa a mediocridade instituída – nunca foi homem de se reger pelo denominador comum. Profundamente magoado, volta a Roma no final da mesma década, onde o destino o impele a assumir a reitoria do Colégio Pontifício Português, vindo a ser, igualmente, reitor da Igreja de Santo António dos Portugueses. Pio XI, vislumbrando o potencial daquele homem reservado e discreto, nomeia-o Camerlengo Privado e Prelado Doméstico, com o título de monsenhor. A 18 de Maio de 1936, D. Teodósio é designado Prelado de Moçambique e Bispo titular de Leuce, recebendo a ordenação episcopal no dia 5 de Julho. Mais tarde, a 4 de Setembro de 1940, é nomeado primeiro Arcebispo de Lourenço Marques (actual Maputo), tendo tomado posse da arquidiocese a 18 de Janeiro de 1941.

Em Moçambique, fiel ao seu lema episcopal, “Omnibus Omnia Factus” – “Feito Tudo Para Todos”, abre as portas do ensino a todas as raças. Funda inúmeras escolas, aplica fundos diocesanos na construção de unidades de saúde básica e providencia respostas aos casos mais gritantes de pobreza entre a população indígena. Atreve-se mesmo, nas suas cartas pastorais, a falar de um futuro de autonomia progressiva para as colónias. O Papa Pio XII eleva-o à dignidade de cardeal-presbítero a 18 de Fevereiro de 1946, tornando-o o primeiro cardeal com sede episcopal em África. Segundo a Santa Sé, a sua elevação ao Colégio dos Cardeais serviu para enfatizar “o direito dos povos coloniais a uma representação efectiva nos assuntos mundiais”. Em 1958 participa, como cardeal-eleitor, no conclave que elege João XXIII. A pedido do Papa, integrará a comissão preparatória do Concílio Vaticano II, o sopro que revolucionará toda a Igreja. Morreu de leucemia no dia 6 de Fevereiro de 1962, pedindo em testamento que distribuíssem o que deixasse de dinheiro pelos pobres de Lourenço Marques e do Funchal. “Nasci pobre. Pobre tenho vivido. Pobre quero morrer.”

O seu cunho, nos caminhos sinuosos do dramático século XX, é indiscutível – ainda que incompreensivelmente apagado dos círculos académicos onde se canonizam os colossos da História, e bem longe de corriqueiras evocações que afagam uma identidade islenha despida de referências. Na semana em que se cumpriram 130 anos do seu nascimento, o governo da sua região achou por bem remover a única invocação de D. Teodósio num edifício público, pela supressão da escola que ostentava o seu nome, sumariamente apagado numa espécie de “damnatio memoriae”.

“Chorar... Chorar sempre... Sempre! Chorar um passado que não volta mais! Chorar um presente que me foge vazio. Chorar o futuro que me põe na cruel incerteza do amanhã. Chorar ante a impotência. Chorar amorosamente no fragor da repressão de afectos puros a que renunciei para sempre. Chorar sobre os destroços de um coração que já me não pertence, porque o dei todo.”

​Teodósio, Anotações Íntimas.