Dito e feito

Vladimiro Rocha entregou o donativo de 250 mil euros ao padre missionário em janeiro e depois viveu uns tempos em paz. Aos domingos ia à missa. Às terças e quintas rezava com o grupo da paróquia. De manhã tratava da fazenda. À tarde passeava. À noite tomava as pastilhas, dormia sossegado. Mas de repente, na passagem de Todos os Santos para Fiéis Defuntos, o Anjo do Senhor apareceu-lhe com um realismo atroz, como se fosse mesmo feito de carne e osso e sangue a ferver também. Estava irado e a sua voz era fogo:

– Ergue-te e parte já para África.

O filho do homem acordou mais angustiado do que nunca. Sentou-se na beira da cama com a careca transpirada, os olhos arregalados e o bigode esgrouviado e decidiu ir imediatamente visitar a missão em África.

​Após dez horas de voo, achou-se num aeroporto minúsculo e caótico, com temperatura de estufa e infestado de cheiros azedos, cheio de gente e confusão, onde era difícil movimentar-se e perceber o que estava a acontecer, sobretudo para ele que nunca tinha saído da Europa. Como se isso não bastasse, a sua mala não chegou e o caos adensou-se tanto que até lhe apeteceu chorar.

No entanto, respirou fundo e começou a resolver o problema. Deu parte da mala desaparecida e, vencida a barreira de pedintes e assediadores profissionais à porta do aeroporto, meteu-se num táxi e foi para o hotel, onde entrou em completo delírio, com as mãos nos bolsos e uma pequena pasta a tiracolo. Comeu uma sandes no bar, sentado ao balcão. Depois, foi para o quarto, tomou os comprimidos e adormeceu.

No dia seguinte, juntou-se a um grupo de espanhóis de meia-idade que estavam no mesmo hotel e foram todos dar uma volta pela cidade. No Mercado Central – um vasto palco de imundice como jamais vira – comprou duas camisolas, quatro pares de cuecas e um par de calças que, só mais tarde reparou, eram demasiado largas. Também comprou pasta de dentes e uma escova, uma toalha de banho e uma pequena mochila.

Um espanhol olhou para ele e disse:

– Com tudo isso vive-se muito bem.

Vladimiro Rocha sorriu e disse:

– Com muito menos vive-se ainda melhor.

Os espanhóis apreciaram imenso a sua companhia e como iam todos para norte, convidaram-no para acompanhá-los até ao ponto de separação, a dois mil quilómetros, seguindo estes para nordeste, rumo às praias, e Vladimiro Rocha para noroeste, rumo à missão.

Dois dias depois o filho do homem achou-se sozinho numa pequena cidade suja, húmida e pegajosa, onde teve de esperar três dias por transporte para a localidade da missão, que ficava mesmo no fim do mundo. Por sorte, havia um quarto disponível na melhor pensão e até tinha ar condicionado.

Foi a partir desta espera que ele deu conta que estava em África, pois até então tudo tinha decorrido como num sonho, sem força física, sem existência.

Vladimiro Rocha olhou em redor, reparou nas coisas e nas pessoas, cruzou-se com cães famélicos horrivelmente tinhosos, viu muitos homens bêbados, viu bicicletas a transportar portas, camas e cabritos, viu sandes com ótimo aspeto na banca de vendedores nojentos, viu tipos esfarrapados por todo o lado e viu também um miúdo que baixou as calças e defecou no meio da rua à vista de todos, ficando logo cercado de moscas coloridas.

O filho do homem observou a miséria e concluiu que em tudo havia um encanto misterioso, insondável, um encanto que emanava da sensualidade das pessoas, da sua cor negra e do desleixo com que enfrentavam as horas e as ocupações, um encanto que brotava da terra, chovia do céu, selvagem, bruto, líquido.

Então acalmou-se e, pela primeira vez em muitos meses, esqueceu-se de tomar os comprimidos. No último dia bebeu uma cerveja de meio litro antes de se deitar e na madrugada seguinte acomodou-se o melhor que pôde na carroçaria de um Canter, juntamente com umas trinta pessoas. Percorreu duzentos quilómetros de estrada em terra batida até à beira dum rio. Ali teve de esperar três horas por uma barcaça apodrecida para passar para a outra margem e durante esse tempo viu-se rodeado por crianças maltrapilhas e sorridentes que admiravam bastante a sua careca (agora não apenas luzidia como também vermelha), o seu bigode e os seus olhos de louco.

​Um miúdo perguntou-lhe:

– Para onde vais, branco?

E ele respondeu:

– Talvez vá para o inferno.

(Continua…)