Eu te recordo

Porque sou dada a revivalismos, maio é um mês muito especial para mim. Era o mês em que Nossa Senhora de Fátima visitava a nossa casa para nos ouvir rezar a novena, recitada pela sua homónima e minha mãe. Foi também o mês em que me mudei para a minha casa e o mês que escolhi para casar.

No geral, as minhas recordações de maio são doces e agradáveis mas também há outras que são sombrias e indefinidas. Costumo procurar voluntariamente pelas primeiras, ainda ontem fui colocar flores brancas e uma vela junto a uma fotografia a preto e branco. Limpei a moldura, limpei o vidro e fiquei ali a matar saudades.

Já as recordações do segundo tipo apenas precisam de um gatilho para aparecerem e desaparecerem qual fantasmas. E nestes dias de maio, parece haver gatilhos por todo o lado. Uma música que passa no rádio, o cheiro da roupa lavada, a magreza do vizinho, os ímanes de viagens na porta do frigorífico, um comentário, uma palavra. É quanto basta.

Acho lindo que os romanos tenham localizado no coração a Sede da memória. E que a palavra ‘recordar’, derivada do latim, tenha como significado original ‘fazer passar novamente pelo coração’. O que é bem diferente de ‘lembrar’, onde os acontecimentos fazem outro caminho e passam pela razão.

Acontece que essa visita, voluntária ou involuntária, ao coração não é inócua. Quando recordo momentos, bons ou maus, estou também a lembrar-me de que não voltarão a acontecer.

Posso até desejar ardentemente reviver uma situação feliz e conseguir que as circunstâncias se repitam, mas será sempre outra coisa, num tempo e espaço diferentes, fará parte de uma outra memória. O mesmo carácter irrepetível que entristece nuns casos, noutros serve de consolo. Se recordo momentos tristes encontro consolo em já lhes ter escapado e no que pude aprender com eles.

Felizmente que não fico a pensar no facto dos momentos serem únicos quando estou a vivê-los, acho que seria um desperdício. Todos os momentos contêm a sua própria despedida, não há nada a fazer. Só penso nisso depois, quando os recordo. Como tem acontecido em maio, um mês que passo bem acompanhada por momentos que não voltam mais. A não ser ao meu coração.