Mais do que a Escola

Aposto que a maioria das pessoas quase nem se lembra do que aprendeu em contexto de sala, mas não se esquecem da forma como este ou aquele professor os marcou.

Fiz o terceiro e quarto ano do Primeiro Ciclo na Escola das Pedras, no Rochão (“Na de José Barreto” para ser mais específica). A minha mãe também lá estudou e parece que pouca diferença havia no edifício (já tinha sanita, mas quando íamos até à fonte de balde, era sinal de que algo nos tinha corrido mal na casa de banho). Às vezes dava-me a sensação de que por sermos do Rochão, já não tínhamos as mesmas oportunidades que “os de lá de baixo” da Camacha. Contudo, havia algo que superava todas essas limitações: a dinâmica entre as professoras e alunos. A Professora Vitalina, via-a como um anjo descido do céu. Tinha tanta paciência e a sua forma de falar connosco “ao mesmo nível” era impressionante. Respeitava as nossas dificuldades e não fazia comparações uns com os outros. A professora Helena, de música, tudo fazia para aprendermos o “TI-TI-TA” e nos integrar a todos: ou cantas ou danças, ou tocas flauta, ou xilofone ou o que fosse! Até nos vinha buscar no seu renault clio para irmos aos ensaios da “Musicaeb”.

Chega o momento de ir para a “escola grande da Camacha”, a EB 2/3 Dr. Alfredo Ferreira Nóbrega Júnior. Provavelmente, lá para os lados da cidade, haveria outras escolas com maior prestígio, mas a proximidade entre professores e alunos naquela escola, poderia bater recordes! A professora Isabel Brazão, de inglês, mesmo sabendo que eu gostava mais de Inglês do que o Inglês gostava de mim, não desistia de me explicar; o mesmo acontecia com a professora Cristina Ferreira, de matemática; O professor Daniel Quintal, de Educação Física, que quando jogava futebol, usava os calções e celebrava os golos que marcava de uma forma única e não me parecia importar-se com o que os outros pudessem achar disso; O Professor Carlos Paulo, também de Educação Física, que eu não sabia onde ia buscar tanta energia e alegria; A professora Edite, de História, que com ela aprendi a dominar o uso das conjugações (Ex: “contudo”, “assim sendo”, “para tal”) o que dá um jeitão para relacionar conteúdos de forma rápida e eficaz. A Professora Conceição, de Música, que virou o mundo do avesso para que 5 meninas armadas em vedetas pudessem participar num festival na Calheta; A Professora Sónia Henriques, de Português, a professora dos lindos caracóis e sorriso radiante que teve a árdua tarefa de apresentar “Os Lusíadas” a alunos pré-adolescentes.

No Secundário, naquela maravilhosa escola que é a Francisco Franco, encontrei a professora Goreti Gonçalves, de Português, que para além de transmitir os conteúdos de uma forma verdadeiramente entusiasta, demonstrou que eu podia sonhar mais alto, ainda que tivesse que trabalhar e esforçar-me muito. Fez-me acreditar que eu poderia fazer o Ensino Superior e que tinha tudo para ser dona do meu nariz (e ela estava certa!).

Na Universidade da Madeira encontrei professores como Maria João Beja e Margarida Pocinho com uma capacidade fantástica de relacionar a matéria com o nosso dia a dia. E se houve algo que eu aprendi nesta Universidade é que se não sabes alguma coisa, vais encontrar forma de saber!

Hoje, como encarregada de educação acredito que pouca diferença faz se a Escola é pública ou privada, afamada ou pouco conceituada, que se use farda ou não, que esteja no Ranking ou fora dele, que se pague mensalidades astronómicas ou que seja totalmente gratuita. Em qualquer um dos casos, a diferença está na fé que os professores depositam nos alunos e que traz ao de cima o melhor deles e as potencialidades que eles próprios desconheciam ter.

Obrigada a todos os professores que procuram inspirar os seus alunos e torná-los pessoas melhores.