Três cartazes, perdão, três promessas à beira da estrada

Habituados a lançar doses maciças de soporíferos sobre as “pessoas”, os socialistas-populistas-demagogos (nome inventado por mim) do Funchal entretêm-nos com notícias repetidas até à exaustão. O objectivo é rudimentar e resume-se num embuste: falar muito, fazer pouco. E rezar. Rezar várias vezes ao dia, à espera que algo apareça feito.

Apesar das virtudes, este esquema não é suficiente, contudo, para calar os chatos que notam as incongruências diárias, muitas delas de enorme sentido cómico. Logo, foi preciso completar o enredo noticioso com as recentemente célebres trinta razões de queixa que [façam um “ahhhh” bem sonoro, respirem fundo, façam silêncio e prossigam após essa pequena pausa] impedem o presidente da câmara de fazer aquilo que devia estar a fazer: a governar a cidade, a trabalhar para ela e a transformá-la “na melhor das melhores das magníficas cidades do mundo e dos arredores do universo” (palavras aproximadas e, mais ou menos, do próprio).

Claro que um cidadão atento não entraria tão depressa nessa viela e sem pensar, por exemplo e em alternativa, que o Dr. Paulo não faz mais se calhar porque realmente nunca está, porque passa muito tempo a explicar à Dra. Cerdas que Letónia e Lapónia não são a mesma coisa ou porque sabe que mentiu conscientemente às “pessoas”, situação que deve gerar, presumo, embaraço e alguma vergonha.

Mas não: o presidente da CMF vai em frente e insiste que a culpa não é dele, nem podia ser. E se a culpa não é dele, a culpa só pode ser [façam novo “ahhhh” bem sonoro, respirem fundo, façam silêncio e prossigam após essa pequena pausa] do governo, da vereação do PSD, das forças de bloqueio, da CIA, do sionismo e dos irmãos Dalton, esse bando de malfeitores empenhado em impedir que o Funchal seja hoje a melhor cidade da Europa (ou do Mundo, já não sei dizer com precisão).

No entanto, e porque pela boca morre o peixe, o edil acabou apanhado numa armadilha: afinal, o político que não usa duas vezes os mesmos óculos de sol numa semana, é o mesmo político que não consegue pagar os ordenados dos seus funcionários no fim do mês. Convenhamos que ordenados em atraso é uma originalidade complicada e difícil de passar para outros, incluindo para o Fernão de Ornelas, este até por motivos óbvios. E mais ainda quando falamos de alguém que ia cumprir o mandato até ao fim, que ia sair quando houvesse data marcada para as eleições e que ia ressarcir rapidamente as vítimas da tragédia do Monte, custasse o que custasse.

Não vale a pena fazer um apanhado do ponto de situação destas promessas porque sabemos o seu resultado. Mas já vale a pena perceber que também foi por aqui que se reduziu a segunda coligação camarária a nada, depois de uma vitória baseada em juras de amor eterno que não duraram três semanas. Os fanáticos, que os há, dir-me-ão que esta culpa também não é dele, como se não pudéssemos pedir a sua excelência que cumpra com o que prometeu (e a mais não seria obrigado). Mas a esses deixo o aviso que consta na parede de um qualquer estabelecimento: à primeira qualquer um cai, à segunda cai quem quer, mas à terceira só cai o rapaz que jura que a Suíça pertence à União Europeia e que ainda recebe o ordenado no dia certo.

E se por entre as duas coligações ainda tivemos tempo para contemplar a invasão silenciosa das esplanadas, o falhanço da pílula contraceptiva para pombas da D. Idalina, a novela interminável sobre 48 bombeiros (que afinal são 30), a duplicação esclarecida das estatísticas e dos atendimentos em quiosques, caravanas e derivados e o célebre milagre da dívida cujo montante nunca nenhum deles soube sequer precisar, não foi por falta de aviso que não se evitou nova esparrela.

Ainda assim, apesar dos subterfúgios e das desculpas de mau pagador, parece que o Funchal continua hoje igual a ontem: descuidado e sem orientação, e agora também a distribuir, em desespero, medalhas e dinheiro.

Em ano eleitoral não é grande coisa, principalmente com salários em atraso, com a Dra. Cerdas na lista do Dr. Pedro Marques e com todas as promessas enterradas na espuma efémera dos dias (para dar um ar poético à coisa). Mas com poesia ou sem ela, esperar ver o presidente da câmara a cumprir o que promete é como esperar ver o ministro das finanças a acertar nas contas do país ou o primeiro-ministro a falar bom português: uma impossibilidade evidente para uns, uma fantasia deliciosa para outros.