Poderia falar-vos

Eu hoje poderia falar-vos. Do lixo que ainda vai fazendo de Luanda, e não só, a sua morada indesejada. Podia. Mas não. Podia falar-vos dos bairros degradados. Dos que no Brasil chamam de favela. Na França de bidonville. Problemáticos em Portugal e, aqui, de musseque que de nome de areia vermelha se generalizou para bairros caóticos, desorganizados degradados. Mas não. Podia falar-vos do trânsito confuso, quase sem regras. Tumultuado. Mas não. Podia falar-vos da inexplicável falta de combustível num país produtor de petróleo ou da falta de água nas torneiras num país de mil rios, ou da sua fraca qualidade. Mas não. Podia. Podia falar-vos de estradas esburacadas. Mal cuidadas. Quase intransitáveis. Mas não. Não.

Vou falar-vos de praias. De mais de mil quilómetros de areias douradas que o mar vem beijar em beijos de ternura ou, quem vá lá saber, tantas vezes em zangas de namorados. Praias de nomes macios como Miragens. Morena. Palmeirinhas. Girassol. Flamingos. Ou de nome gostosos de mulher como Amélia. De nomes fortes como Sangano. Sombreiro. Enigmáticos como Mussulu.

Podia falar-vos do calor. Incomodativo. Cansativo. Insuportável, Mas não. Prefiro falar-vos do calor do deserto do Namibe. Esse local vazio. Inóspito. Desabitado. Desabitado só para quem o não conhece. O Namibe pulula de vida. É a própria vida. Pulsa de força. Da força do leão. Ou da onça. Brincalhão como o cabriolar das gazelas. Curioso como a meiguice das suricatas. Arriscado como a mordedura dos escorpiões. Das cobras acoitadas quase debaixo de cada pedra. Da singeleza das flores adormecidas na areia e que despertam em explosões de luz e cor ao beijo de uma chuvada. Para logo adormecerem até novo beijo.

Podia falar-vos dos mosquitos. Raivosos. Quais minúsculos vampiros sedentos e venenosos. Mas não. Vou falar-vos de borboletas multicolores ondulando por sobre a policromia dos cosmos, a singela flor das planuras.

Podia falar-vos de falhas e defeitos. De erros e oportunismos. Podia. Do azedo da vida. Podia. Mas não. Vou falar-vos de frutos de nomes delicados. Pitanga. Manga. Cajú. Ou exóticos. Lombula. Maboque. Matambote. Mirangolo. Loengo. Ácidos como Múcua, o estranho fruto do enigmático imbondeiro, que ergue para os céus braços descarnados como raízes. Matipatipa, carocinho vermelho abrigado em véu de noiva tecido de delicada renda.

Podia falar-vos de malária. Paludismo. Catolotolo. Mas não. Vou falar-vos de plantas que curam. Brututu. Caxinde. Capungo-pungu.

E vou falar-vos de rios. Grandes. Pequenos. Imensos. Revoltos, Calmos. Kwanza, o maior de todos. Bengo, de muitas e famosas estórias, Cunene. Mítico. Misterioso. Giraul de águas embravecidas pelas chuvas da serra da Chela. Luembe que, dizem, esconde o brilho dos diamantes. Rios de torrentes e quedas. Cascatas e cataratas. Kalandula. Dala. Binda. Ruacaná.

Podia falar-vos. Podia. Falar-vos de muito. Muito. E muito em Angola é um quase nada.

Falar de Angola é uma imensidão sem limites.

Podia falar-vos do resto. Do muito que falta. Mas, do tudo que falta não se consegue falar. Como disse o poeta, “só vendo claramente visto”.