E então chegou a vez dela

Interrompo a história do benfeitor Vladimiro Rocha para contar o seguinte: Na semana passada acompanhei a minha namorada às Finanças, na Avenida Calouste Gulbenkian, onde ela foi tratar de um assunto. Chegámos lá e havia cinco ou seis pessoas à frente e então ficámos de pé num canto a conversar enquanto esperávamos a vez.

Eu tinha passado a noite em claro e parecia uma alma penada à luz do dia. Uma vez mais, vinda do nada, a soma do horror do mundo tinha-se concretizado em mim, espalhando metástases de subtrair, dividir e multiplicar por todo o ser, indo da flor do corpo à raiz do espírito, para além do tempo e do espaço, até ao fundo do precipício que há no pensar e no sentir.

Eu estava lento, lerdo e lívido e ela estava muito irritada com a minha atitude, tão impaciente que até lhe apetecia bater-me, sacudir-me, despertar-me à força. Disse-me coisas com vigor e nervo. Basicamente isto:

– Acorda, homem!

Cada palavra era um raio fulminante, cada olhar um tiro mortífero. E cada gesto era um ato implacável, cada suspiro um vento fatal. Mas eu não queria sair da procissão dos passos onde estava, não queria não senhor. Continuava descalço e esfarrapado pela vereda acima, sozinho a caminho do calvário, com a cruz do viver no poio mais ranhoso a ensanguentar-me os ombros, a maldita cruz das coisas mesquinhas a obstruir o meu respirar.

– A gente sofre, mas gosta de viver aqui, ai se gosta!

E lá ia eu, embutido na pedra bruta do caminho, rodeado de verde e infinito, sem esquecer nada do que vivi, sem esquecer ninguém, nenhum lugar, nenhum dia, sem apagar ou negar nada do que sou, eu poeta da triste figura sem poema para dizer transporto sem amargura o meu passado como trouxa de pedinte e quero levá-lo sempre comigo, meu estandarte de luz e escuridão, passo a passo até ao fim, ai que desgraça, eu a dizer, ai que desgraça…

E então chegou a vez dela.

Ela avançou, sentou-se à frente da funcionária, papéis em cima da mesa, a exposição do caso, um bater agitado de teclas, compasso de espera, a habitual lentidão do sistema, conversa para cá, conversa para lá, e eu ao fundo a vê-la assim de costas, a minha namorada tão bonita e elegante, o cabelo grosso e loiro amarrado em rabo de cavalo um pouco acima da nuca, a pele alva do pescoço projetada na claridade baça da sala e de repente ela faz um leve movimento com a cabeça e isso traz-me o seu perfil tão suave e doce, tão inebriante e coberto de silêncio.

A angústia começa a desfazer-se em plena repartição de Finanças.

A blusa cor de mostarda, acetinada e com mangas de balão, assenta-lhe muito bem e realça a nobreza do seu porte, combina na perfeição com as calças pretas e as botas de salto alto e eu, vendo-a à distância de três passos, já não me lembro ao certo porque diabo não consegui dormir, que estupor de insónia foi aquela, pois se há tormento na minha alma, se há inquietação nos meus dias, ela vem e é todo o meu sossego, todo o meu amparo, sim, a minha namorada é toda a minha paz.

De repente, ela olha para trás, olha para mim, linda de morrer, linda mesmo, e sorri e o seu sorriso está cheio de sol e de lua e de céu e de água também, está cheio do universo inteiro e de tudo o que nele há de mais belo e profundo.

E eu penso assim: Meu Deus, sou tão feliz!

Dito isto, informo que na próxima quinta-feira retomo a história do benfeitor Vladimiro Rocha.